domingo, 3 de julho de 2016

AUTORRETRATO

Em preto e branco, o espelho traça, todos os dias, as linhas da imagem que guardo de mim. Testemunha confiável dos meus murmúrios, aquele antigo vidro refletor de confidências sabe tudo da minha jornada.

Pedi-lhe que montasse em tela, suficientes reminiscências para a minha autobiografia, mas a ele restou uma obra inacabada, porque minha alma quase invisível, é esquiva de nascença e nem sempre se deixa retratar. 

Hoje finalmente lhe perguntei: “Espelho, espelho meu, então quem sou eu dentro das suas memórias?” O espelho, circunspecto em sua expressão e fiel às suas lembranças, respondeu com as minhas próprias palavras, ao entregar meu autorretrato, assim pintado:
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Sei que nasci Regina, mas entre entes queridos me torno abreviada e atendo por Gina. Cheguei a este mundo numa estação do ano em que a palavra tinha peso, a música tinha melodia, e o abraço tinha sentimento. Minha infância fala de uma canção noturna onde as pessoas se cumprimentavam antes do sono e as sombras dos arbustos no muro dormiam mais cedo.

Sou feita de carne, osso e questionamentos. Tenho ânsia pela vida e por tudo que nela posso aprender e ensinar. De tempos em tempos, desperto da realidade e acordo para os sonhos. Por isso, cumpro a sina de querer ser muitas mulheres numa pele só. Vivo todas num mesmo impulso, ou uma única por tempo bastante.

As pessoas do meu convívio afetivo, que historiam as minhas pegadas, são também meus amuletos. Meu temperamento mais que imprevisível diz que é próprio do meu feitio, a atração pelo desconhecido e o gosto pelo improvável. Minha maior conquista é a paz. A paz que me sacode o ânimo, que me carrega as baterias do espírito em alta voltagem, que me mantém na obra e graça da Luz. E o meu lazer começa pela minha inquieta paz, com o entusiasmo que ela me traz a estar de bem com a vida.

Minha sede em mergulhar nas entranhas do Direito, me levou ao vício de me importar com tudo que clama justiça. Declaro-me pacifista por natureza em pele de gladiadora no combate às sombras do ócio que se avizinhe de mim. O traje radicalista não cabe na minha bíblia. Meu título mais alto para fins de direitos, é o de ser humano. Sou extremamente cética quanto à política no meu País, mas, ainda que não me vista de militante, guardo um apego cívico pela minha Pátria.

Assino minhas escolhas com todas as letras e assumo ser a senhoria dos meus fardos. Longe de ser perfeita, ancoro minha energia em intensos desafios. Desconfio que nasci sem bússola, pois nas rotas que eu traço, cabem mais viagens que cidades, e as minhas mãos descrentes de pontos cardeais apontam sempre para a direção de novos rumos.

Observar e entender a natureza humana é um dos meus grandes propósitos. Sofro de curiosidade incessante por novas descobertas. Daí sobrevém um hábito corrosivo de interesse pela leitura já que a Literatura é o instrumento com que reinvento novas veredas para a minha mente.

Enquanto vivente sentenciada ao trânsito neste Planeta, aceito que posso mudar minhas certezas. Mas meias-verdades não cabem na minha lógica, pois o meu senso, de tão crítico, tem o hábito de ver e ler pelo avesso, as palavras vazias que o vento leva. Então eu deixo que a Poesia me lapide o espírito sempre tão insurgente. E sempre, e tanto, que repudia o marasmo, a injustiça, o conformismo, a violência.

Minha religião é Deus - o Senhor dos Mundos - e sou temente e obediente aos seus preceitos. Porto ainda com devoção, a filosofia de que, ter gratidão e ventura neste mundo, é conservar a capacidade de se encantar com a vida todos os dias.

Para a minha vida ideal, desenhei felicidade num éden particular. Mas o destino me respondeu com batalhas, alegando que, antes de tudo, me moldaria a ferro e fogo. Como todo mortal incompleto, o meu ser humano tropeçou em trancos, duelou com os próprios dragões e por vezes perdeu pedaços de humanidade. Meu coração sofreu trincaduras e precisou de reformas com titânio. Em minha defesa, construí um forte de pedras e cauterizei o interior ferido com aço, para esculpir na minha aparência externa a solidez de uma rocha.  Escondi-me de mim mesma, fiz-me noite e deixei-me nevar até que as asas renascessem das cinzas. Inteira outra vez, na mais pura vibração com a vida, carecia então criar memórias futuras. Assim, cruzei o corpo e me levei de volta às minhas terras de outrora e lhes recortei em nova geografia. Voei para lugares sem mapa das minhas novas vivências e inventei outros continentes. Descobri que sei menos que nada, e reaprendi a trazer às planícies da minha pele, a calmaria dos bons ventos e das boas sementes.

Hoje, teimo em regar uma paixão especial pela escrita. Pela escrita com palavras pintadas que se escondem na mais simples das prosas.  E por trazer os neurônios vertendo alfabetos pelas bordas, tenho pressa em gastar aquelas palavras que borbulham nas frestas das minhas meias-memórias.

E assim, quando mais tarde, venha o tempo a me ditar: “Não mais teus punhos conseguem anotar tua fala, não mais teus olhos podem correr na trilha dos livros, não mais teus sentidos alcançam perceber a música nas letras, nem mesmo a tua voz cantará teu pensar, pois é chegado o regresso.”

Eu possa, em reverência, lhe dizer: “Senhor Tempo. Data maxima venia, eu não sou apenas um corpo. Eu sou também uma mente. Na minha vida sem rascunho, passei a limpo as minhas ideias. E meus rabiscos darão voz a elas.”

Assim, faço o fim dos meus dias um pouco mais longe e a minha frágil eternidade perdura um pouco mais.

Essa, sou eu.

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CRÔNICA 58

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domingo, 4 de outubro de 2015

UMA NOVA LEITURA

Alguém me perguntou no avião:

- O que mais te agrada nas viagens?

Respondi que é o cheiro da vida. Os movimentos dos dias que encontram ressonância nas quatro estações que habitam em mim. Quinhentas vezes me espanto com os cinquenta mil tons de cores, texturas e olores pintando a grandeza das paisagens na Terra. Que deixam meu coração sem fala, sempre que invento andanças por esse mundo de meu Deus.

Mas o que me acende nas viagens é poder olhar e ver o que se passa ao meu redor, dentro de uma nova leitura, livre de censuras, livre de geografias. Avisto o atrativo de cada mundo por onde passo ao deixar meu coração dar sentido àquilo que as minhas poucas palavras interpretam. Do mesmo jeito que faço no meu dia, no meu canto, na minha tribo, quando aprumo o aroma do Belo na beira dos olhos.

Penso eu, é como olhar com a íris da alma, quando estamos dispostos a romper com o óbvio e enchemos o peito com ar fresco da cor da hera que sobe nos cumes. É assim que a mente descobre uma nova trilha para melhor perceber o que lhe foge a olho nu.

Desde os domínios da infância, trago rabiscado no DNA a ideia de sobrevoar sonhos no futuro. Sonhos grandes, maiores que o horizonte da minha janela que eu alcançava com as mãos. De navegar até terras distantes, de buscar o inusitado e viver redescobertas. Mas enquanto o amanhã não vinha, aprendi a ruminar a riqueza de detalhes que estava mais perto, ao longo do dia, no meio do caminho. Esse hábito criou raízes além dos meus limites para mostrar que não preciso colocar a felicidade num pódio, no destino, na linha de chegada, enquanto ela se derrama na passagem, no agora, no inesperado.

Foi assim que passei a enxergar toda a poesia escondida nas prosas e a escrever com as tintas das palavras pintadas na ponta da língua. Passei a construir páginas com os retalhos das cenas que me tiraram o fôlego na caminhada. Poderia contar tudo em historietas de uma frase só, com meias-palavras. Mas por trazer os neurônios vertendo alfabetos pelas bordas, tenho urgência em gastar as palavras inteiras. E sempre que folheio meu tomo de memórias, ao escrever meus contos de acasos, minha alma anda longe do corpo e nem se dá conta de que me deixou para trás.

E aqui resgato um recorte de um dos sonhos sobrevoados num país que se estendia em vermelho, em protocolos, em trato elegante, em gestos polidos.

Lá estávamos nós dois - Ulysses e eu - no saguão do hotel, decidindo um percurso novo para aquele dia em Londres. Todo o frio londrino cabia dentro do meu casaco e congelava os meus planos. Nem luvas davam conta de barrar a invasão dos dez graus direto nos meus ossos. Eu sentia cair flocos de neve diluindo cada item do nosso roteiro. Pedia umas horas de trégua àquela chuva fina e insistente, para sair e andar livremente nas ruas da cidade. Já contava nos dedos os dias passados desbravando a Inglaterra, numa via-sacra de monumento a monumento. Mas naquele dia, tudo o que eu queria era encontrar o DVD original do filme Somewere in Times, e quem sabe, escavar uma relíquia dos Beatles gravada em vinil.

No começo da tarde, me surpreendi com a pausa no tempo nublado. As nuvens cor de gris passaram a dissolver apenas um sereno suave só para cobrir a nossa escapada do hotel. Capuz na cabeça, passos ligeiros rumo ao metrô. Uma vez no interior daquele coletivo subterrâneo, deixamos de considerar os trajetos de todas as linhas. Deixamos a direção à deriva, para explorar zonas desconhecidas, fora do traçado turístico. E finalmente, decidimos descer num trecho qualquer.

Quando saltamos na plataforma, sentimos ter caído em área restrita, bem diferente da zona de conforto hoteleira. Havia uma nítida linha divisória de costumes e posturas, dentro de um conglomerado comercial avançado. Todos os passantes se trajavam de negro, usavam maquiagem pesada, cabelos coloridos, desenhados em cortes exóticos e exibiam corpos andrógenos com uma aparência unissex, cobertos de piercings e tatuagens agressivas. Lembrava um estúdio de filmagens de uma comunidade dark. Mas as expressões intimidadoras e gestos ostensivamente rebeldes mostravam que se tratava de um clima pouco amigável na vida real.

Apressamos o passo e conseguimos entrar rapidamente numa lojinha discoteca. Sobressaltada, espiei pela vidraça, com o medo escorrendo nas minhas pálpebras, tentando lembrar o que tinha ido comprar para abraçar tanta loucura. Respirava tão forte, que minha mão reconhecia o caminho que o ar percorre dentro do peito, tal qual o correr de um rio invisível. Nunca estive tão perto de todas as minhas distâncias. Ulysses mantinha-se tranquilo, no alto de sua habitual segurança. Mas eu, só desejava um milagre de sairmos dali, impunes. Nisso, salta à minha vista, uma gôndola no canto da loja, com filmes e discos antigos lacrados. Abracei todos os meus vídeos fadados à extinção, empilhados nas sacolas com o preço que o susto me cobrou. Teríamos que abandonar o esconderijo para atravessar o campo minado. No suspense do retorno, ocultei o olhar desconfiado no bolso, e usei a adrenalina fervendo para moldar uma feição feroz sobre o meu rosto. Para afastar o cheiro do medo captado pelo predador. Mas o espelho em frente à porta me disse que o meu disfarce denunciava um coelho assustado. Saí assim mesmo, afinal, eu esperava um prodígio enviado pelos céus para salvar nossa pele.

Na saída da loja, o sol tênue já se mostrava indisposto para continuar alumiando. Estávamos longe demais da nossa hospedagem. Um frio de petrificar os passos prendia minhas palavras no céu da boca. E eis que do nada, um guarda tipicamente inglês, muito alto e bem vestido, aproximou-se com andar acelerado e nos abordou com extrema educação. Entendi ser aquilo a materialização do socorro tão ansiado. Gentilmente, o atento sentinela alertou-nos que aquele lugar era perigoso para nossa integridade. Não era seguro nossa permanência nos arredores e prudente seria nossa retirada. Apontou o caminho de volta, e escoltou-nos até o embarque na estação. Enquanto aguardávamos a chegada do trem, não consegui desviar os olhos do que se passou depois, a poucos metros da minha perplexidade.

Um cão abandonado, quase adulto, faminto e visivelmente atormentado por um machucado na pata dianteira, se viu atraído pela presença daquele policial. Aproximou-se mancando, parou e sentou-se frente ao guarda, no meio da passagem. Olhou fixamente para o humano, como se suplicasse algo. O guarda interrompeu o passo e gastou alguns segundos avaliando o quadro à sua frente. De dentro da expressão austera, deixou escapar um leve sinal de camaradagem no canto da boca. Sem vacilar, puxou do bolso do sobretudo um sanduíche embalado. Rasgou o pacote ao meio e curvou-se levando o pedaço até o focinho do animal. Uma lambida à distância sorveu o lanche com o papel junto. No instante seguinte, o guarda tirou um alvo lenço do bolso, fez as dobras certas para improvisar uma faixa, abaixou-se, envolveu a pata do bichinho em várias voltas, reposicionando a pele esfolada e cobrindo o pequeno ferimento.

Sacudindo os braços, levantou-se, lavou as mãos num chafariz, ajeitou o chapéu e marchou de volta, empertigado, plácido, impassível, para sua área de vigília. Completamente anônimo, sem aplausos, sem plateia, sem registros. Pensei alto ao dizer pra mim mesma que pessoas assim são capazes de perfumar gotas de orvalho.

Tudo o que presenciei ali mudou a escala do meu olhar. Talvez seja um retrato de pouca moldura, diminuto, ou sem tamanho algum para muitos. Mas para mim, estaria para sempre, lavrado nas memórias sensíveis e engrandecido dentro do meu novo olhar, da minha nova leitura. Pela janela do trem em movimento, o cenário da aventura naquela selva urbana distanciou-se até se perder em algum lugar do passado. Precisei rebobinar-me para escrever este conto.  

Reconheço minha vida sem rascunho e ainda em construção. A cada amanhecer, reservo ao coração assentos calmos. Mas a todo instante, um pé-de-vento sacode as minhas certezas e me diz que há beleza no mundo, para eu sobreviver de esperanças na humanidade. Ainda que em migalhas.

E assim, os anos passam tão rente aos nossos pés, que às vezes eu me deixo chover. Para florir violetas no meu chapéu, enquanto desato a corda do barco que parte de mim, levando-me a outros mares para eu cumprir minha sina de eterna aprendiz da vida. E o meu peito, farto de maresias, alberga um coração incrustado de conchas contendo vozes e sorrisos. Lapidado pelos ventos fortes dos lugares por onde passei.


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CRÔNICA 57

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sábado, 23 de junho de 2012

PORTO SEGURO

No meio do jardim, o movimento das ixoras denunciava algo se mexendo rente ao chão naquele vibrante fim de tarde. O sol já se apressara em sair à francesa, por escancarado pacto com um bloco de nuvens a jorrar aquela deliciosa aragem carregada de frescor que sempre antecede um dilúvio. Segurando uma caneca de café adoçado com mel de cana, eu observava o bailado das folhas secas sem rumo, ao capricho do vento ciciando seu clássico canto de chuva. Destitui-me de palavras para que o sussurro das árvores visitasse o meu pensamento. Era mais que oportuno entrar naquela dobra do dia com flagrante vida pulsando no meu quintal derramado de éricas, begonhas e ramas. O ruído das aves se acomodando no aconchego do bando, o aroma de ervas amassadas banhando o ar de cheiro cítrico, as cores pinceladas no céu com nova paleta em tom escarlate, a dança sinuosa das palmeiras no bafejo das rajadas, tudo, àquela glamourosa hora da Ave-Maria, parecia ecoar uma prece em reverência ao Criador de todas as coisas.

E mais uma vez as rubras ixoras se sacudiram no canteiro. Fiquei acompanhando a ondulação das folhas, à espreita da descoberta. De repente, a pequena cabeça desconfiada de um calango emerge da rasteira folhagem e rastreia o perímetro, checando a segurança. Fiquei imóvel para não interferir nas intenções do pequenino réptil. E num lampejo, uma lapada certeira sorve a joaninha desavisada no pátio, frente às plantinhas. Desaparece sem mover mais uma palha. Segundos depois, retorna ao palco do crime, ciscando atrás de comida. Fareja como um cão de caça. Avança mordiscando qualquer inseto ou fragmento que se mova, prende a vítima entre as mandíbulas, e transporta a presa capturada para algum lugar oculto ao pé das densas florinhas.

Com a pressa rés à casca das patas, o brejeiro personagem perdeu o acanhamento e já não se importava com a minha presença. Certamente pelas idas e vindas com passe livre, se achasse dono do terreno, me tolerando como uma invasora supostamente inofensiva no seu território. Tamanha obstinação em arrebanhar comida para estocar sob as mudinhas floridas não fazia muito sentido, já que a carga arrecadada era maior que o molde do seu minúsculo ventre. Fiquei à espera, com a curiosidade à flor dos olhos, enquanto frutinhos e sementes rodopiavam nos meus pés.

A temperatura desce alguns graus num ritual preliminar de agradar nossa pele antes da chuva forte. Toda a paisagem, da terra até o céu, adquire uma nostálgica coloração sépia, nos moldes das fotos antigas. Começava a troca de turno entre o dia e a noite e a guarda dos anjos noturnos iniciava a ronda, soprando o orvalho sobre a Terra. Segurava a respiração para assistir ao que viria do esconderijo naquela moita, mas um longo intervalo de alguns minutos quase me fez desistir.

Esvaziei a caneca, de olho na formação dos flocos de chumbo nas alturas e que lá do céu me apontavam com relâmpagos a ordem para entrar em casa sem demora. Antes de dar o primeiro impulso para sair de cena, cristalizei o passo com o que começou a surgir à minha frente. De dentro da passagem do túnel secreto saiu o herói dessa história com uma marcha diferente, dessa vez, capitaneando uma fileira de calanguinhos empanturrados. O comboio atravessou ligeiro toda a calçada, direto para o jardim oposto do outro lado do muro, entrando, um por um, numa cavidade entre os seixos debaixo do vaso de eugênias. Seguramente um abrigo acastelado contra as pancadas da iminente tempestade.

Talvez pelo cenário bucólico daquele belo entardecer, meu pensar descreveu uma romanesca associação daquele bichinho instintivo no seu mundo animal com a formação do agrupamento familiar entre as humanas criaturas. Provedor, protetor, condutor, pronto para garantir a sobrevivência e a segurança de suas crias, o pequeno lagarto armava suas estratégias com as informações que a Divindade Superior inoculou em seus genes, cumprindo ao pé da letra o que a programação divina lhe incumbiu.

Na visceral linguagem dos movimentos daquele animalzinho, cercando sua prole de cuidados, percebi alguns princípios presentes também na convivência em família do bicho-homem. Lá dos subterrâneos da memória, me veio o registro de que a família, desde sempre, representa o laurel maior de um ser humano. Sua maior conquista. Sua melhor referência. Seu mais alto pendor.

Na família se aninha o amor desinteressado e espontâneo que abastece cada um com o lenitivo capaz de domar tormentas. Nesse reduto afetivo, onde o dividir ensina com quantos ossos se faz um coração, os membros entram descalços dentro do abraço e compartilham um mesmo contexto. Aprendem a se definir como diferentes, a esquinarem-se com um sorriso, desses que criam nos outros uma razão para inventar a felicidade. Em tempos difíceis ou ditosos encarceram lá no escaninho das emoções, um sentimento agregador, quando os exemplos e as experiências de todos fortalece o tronco salutar desse amor a toda prova. Aprimoram-se os relacionamentos, ainda que a duros entreveros, ainda que larvas infectas tenham comido os gestos, mastigado o sangue e desbotado o olhar.

Penso que existe uma chama votiva em algum lugar em nós por dentro da pele pronta a alumiar o que de melhor há em nós para a família. Pronta a aflorar os melhores predicados, a exercitar a paciência, a gentileza, o agrado sincero. São os nossos que merecem o primeiro sorriso da manhã, o abraço mais apertado, a atenção incondicional, a torcida de punho fechado, a oração mais contrita. A magia dessa troca agiganta as forças contra o mundo lá fora, ainda que o mundo seja esse lugar pequeno, onde a temperança não cabe. Por fora, o planeta pode desabar, o caos se instaurar, mas no seio do lar, o universo cresce, a confiança garante, o afeto tem a força do laser contra o impossível. Tudo é de repente simples, como tampar no pulmão campos florados inteiros, pestanejar nesgas de sol, florir pedras roladas, ou guardar estrelas entre a ramagem. É no calor das mãos dadas que crescem as estações abundantes de futuro, com a acolhedora sensação de se sentir no mesmo oco, em suspiros antecipados por um ou dois arrulhos inventando um céu mais baixo, partilhando e crescendo juntos, como os calanguinhos embaixo do vaso, antes da grande chuva. Porque os dias mais belos são esses, em que construímos sonhos e nos sentimos para sempre.

Família é isso. É o porto seguro. Sem ela é como estar num mar, à deriva, sem bússola, sem farol, sem horizonte. Ou num mato, sem mapa, sem trilhas, sem cão, sem norte. Como um nômade errante por dentro da noite, que sem perceber que são negras suas estrelas, deixa o coração vazio e sem memórias encurtar ao tamanho de uma polegada de dor, até fenecer no anonimato.

Preciso correr depressa, o primeiro trovão arremessa seu jato de fogo num raio muito perto. Grossos pingos d’água começam a cair com o peso de meteoros sobre a minha cabeça e acabo de lembrar que toda a minha vida guardei no peito o mar, o por do sol, os dias calmos ou intensos, a chuva, as árvores, as margaridas, os meus entes queridos, os meus filhos que são a minha família frutificando a sete camadas de afeição. Um dia vão saber que vivi com um pé na primavera e morri de sol, de luar, de paz, de riso, de potes de afetos, de luz, de família.

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CRÔNICA 56

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quarta-feira, 16 de maio de 2012

A VERDADEIRA AUTORIDADE


Um poeta americano de nome Ralph Waldo Emerson, disse apropriadamente: “Quem você é, fala tão alto, que não consigo ouvir o que você está dizendo”.

Era quase noite naquela agitação típica de ambiente de shopping, com direito a todo tipo de burburinho gerado pelas promoções da estação. Muita gente, muitas compras, nenhuma vaga. Na fila do caixa do Café mais frequentado, aguardava inquieta, com a pressa ditada pelos ponteiros do meu relógio atolado de compromissos. Justo naquele horário, meio mundo combinou um ajuntamento na mesma Cafeteria. E a afluência de interessados alongava a procissão que avançava a palmos. Todos falavam ao mesmo tempo entre si ou ao celular, atropelando-se com sacolas de desculpas. Invocar toda santa paciência me parecia razoável. A qualquer instante, a fila haveria de andar. Próximo ao balcão, enquanto o adolescente conferia o dinheiro para o pagamento do lanche, o pai exibia com uma piscadela, as habilidades em subtrair e devorar sorrateiramente um elaborado petisco da cesta ao lado. Travessura de pronto festejada no cúmplice cumprimento espalmando as mãos. Só que pouco mais atrás, o moleque de cabelo em corte militar, agarrado à saia da distraída mãe, presenciou a cena com as orelhas em antena do tipo parabólica captando sinais. E no momento seguido, aquele garoto de viva expressão, passou de expectador a protagonista de outra história. Tal qual um ator em franco ensaio para estreia, se esgueirou entre os adultos até à bandeja de salgados, e invisível sob as vistas de uma multidão, apanhou todas as guloseimas ao alcance da mão. Com a voracidade de uma draga, escondeu todos os troféus no bolso do casaco esportivo. Incontido, cerrou os punhos num gesto de vitória, comemorando a proeza aprendida mais rápido que o cair de uma estrela.

Imagino que cada atitude, palavra ou gesto nosso está sendo escaneado e costurado com todos os fragmentos no campo de observação dos que nos cercam, em todo lugar. E fatalmente tal testemunho abrirá ressonância na estrada dos que interagiram com os nossos atos, muitas vezes ao ponto de virar a chave do trilho para direções promissoras ou tortuosas, dependendo das inspirações recebidas de nós.

Mas muitos são os que permanecem aferrolhados ao reiterado hábito de mentir um bocadinho com meias verdades, de induzir terceiros a confirmar inverdades, de sugerir procedimentos pouco éticos, sem se dar conta de que o vil proceder retira a autoridade moral de exigir ou esperar qualquer conduta digna ou leal de alguém.

Assim como tantos outros se valem do cargo investido para imprimir pelo temor reverencial, seus feitos questionáveis, infamados pela total ausência de princípios ou escrúpulos.

Não percebem que o falso moralismo petrifica o merecimento do respeito, condição maior de todas para o acatamento pessoal. Apregoam soluções para os males deste mundo e carregam na boca palavras cintilantes, mas na penumbra, se comprazem em libertinagens. Diante do espelho, o olhar foge à censura pelas manobras escuras para parecer sem ser. Parecer ser bom sem ser realmente do bem. No dúbio viver, com um pé nas aparências e outro no charco, quando a própria alma não lhe reconhece o corpo, arremessam para longe a grandeza da integridade humana, intoxicam a formação de todos os que participam do mesmo convívio e contribuem para consolidar uma sociedade moralmente enferma.

Na moldura do quadro, a reveladora luz da verdade levanta a capa do retrato e prova que não é a posição que enaltece quem ocupa o posto, mas sim o comportamento moral com que a pessoa se conduz dentro dela. Somente as qualidades morais facultam a autonomia almejada, a deferência interior e silenciosa, fluída das profundezas da alma sem temor.

Essa sonhada autoridade moral se torna sólida no exemplo atestado pelos nossos atos. A verdadeira autoridade, aquela que envolve e convence pela própria postura, pisa macio nos arredores do peito e arrasta o coração de olhos fechados. Traz consigo um pedaço de céu limpo onde guardar a cabeça. É parte de quem tem domínio sobre si mesmo, controle por dentro da pele sobre as más inclinações para viver sob as normas do bom proceder.

De nada serve a atitude professoral vertida do alto de uma cátedra, se desacompanhada do exemplo, sem a prática do que prega. Não me refiro necessariamente à conquista das excelsas virtudes ou da excelência moral, mas sim à tentativa constante de acertar, ainda que tropegamente.

A responsabilidade pessoal sobre a direção para onde nossos passos levam outros pés, é patrimônio intransferível. A convivência com os que exercem alguma autoridade hierárquica baliza a tendência natural do discípulo a imitar, a fazer igual. E assim como a comunhão com os bons cimenta os valores morais na mente aberta de quem está perto, a esteira do mau exemplo amalgama o erro e o vício na jornada de vontades mais frágeis. 

Se quisermos existir para sempre, para além das histórias, o exemplo é a senha mais curta para a imortalidade. O mais contundente método de educação, o melhor exercício de caridade, a mais gratificante de todas as tarefas de casa. Ser amostra viva de lições de vida, de mensagens úteis para serem lidas e repetidas pelos que transitam ao nosso redor.

Quem sabe assim, seja gradualmente extinta a fase em que o homem – criatura mortal e imperfeita – escancara sem pudor, total desprezo ao nobre, ao certo, ao justo.

Quem sabe seja possível, a vinda de um tempo em que uma nova consciência venha germinar novos conceitos a despertar nos espíritos o caminho de um futuro mais são. Quando o respeito mútuo argole, por extensão, o respeito à vida, à família, às diferenças. Quando a humanização da humanidade escale os cumes da evolução e se faça latente em tudo que represente a razão da existência.

Enquanto isso, penso que a ética e a moral são requisições prementes para a construção dessa nova era. Carece, por ser de vital importância, a certeza de deixarmos um bom exemplo, um rastro positivo, uma imagem espiritual em boa estampa para todos os que cruzaram a nossa passagem neste Planeta. Certamente num amanhã, todos eles estarão à nossa espera após a grande viagem, com os frutos bons ou ruins das sementes que lhes plantamos aqui com o nosso modo certo ou errado de ser. Disso, não tenho dúvida.

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CRÔNICA 55

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quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

PARA FICAR BEM NA FOTO

Talvez por me trazer mais um aniversário, fevereiro me presenteou com o céu e o inferno astral de uma vez só. O rolo do tempo no passar dos dias punha-se a girar sobre o próprio eixo me sussurrando ao ouvido um sonhador falar da vida, como se ela tivesse acontecido, como se eu tivesse aprendido sobre viver.

Na balança de pesos e contrapesos de vivências num ano inteiro, alegrias de grandes dias e tristezas de dias pequenos me afloram memórias de momentos felizes que inventei. Que não me deixaram dúvidas, só certezas de que quanto mais aprendo, quanto mais conheço, quanto mais avanço, menos sei.

Por mim passam as estações e a terra não muda. Mas no calendário, o mês com meu nome próprio já não conta nos dedos a idade, já sente a fragrância dos perfumes antes de abrir o frasco. Pouco sei das folhas de outono que tingiam as tardes de afetos, cedo varridas da minha lembrança por um pé de vento. Só os meus olhos escuros insistem em castigar a claridade do verão à procura de entender por que, embora a primavera me brotasse entusiasmos a crescer-me no tórax, invernos impiedosos me solaparam vicissitudes a apedrejar-me os pés.

Tantas oscilações na maré do tempo que leva e traz o mar calmo ou agitado a se espraiar no que sou, me afogam as ideias e acabam me levando a um encontro comigo mesma diante do espelho. Pergunto ao meu reflexo se neste dia de anos, oloroso de surpresas, solto fogos ou silêncios. Se comemoro com um grande festejo ou me fecho por dentro, tapando as saídas. Tenho assim, à minha frente, pelo menos as duas direções para decidir quanto à passagem deste evento natalício cheio de mistérios e significados para alguém tão envolvido com a vida.

Em resposta, um futuro inteiro nos meus olhos me segreda palavras de renascimento, quase em murmúrio. Dessas que nasceram para serem ditas em voz baixa, só para o coração ouvir.

Afinal, completar anos marca uma mudança na minha história. Mudança de mais de trezentos dias agregados ao meu tempo de validade. Mais de trezentas vezes por ano para reinventar meu enredo. Um bônus precioso para dar conta depois, no atravessar da catraca que libera a alma para o plano espiritual. Na minha contagem, um saldo de bênçãos me torna devedora da possibilidade de fazer melhor pelos outros. E quanto tempo tenho ainda, me parece um troco generoso.

No novelo dos dias que me restam como dádivas, decidi impor a mim mesma uma revisão nos fios. Então, guiando meu corpo contra o medo de quem quer sorver o mundo inteiro, resolvo me atirar ao poema da vida com nova configuração da minha pessoa. Arrisco a me prescrever um roteiro de beleza, e desenhar uma indumentária especial para brilhar na minha festa.

Os elementos escolhidos haverão de me cobrir com um aspecto moderno, dentro de uma modelagem que me caia bem. Isso requer uma pesquisa acurada sobre o melhor estilo. Exige idas e vindas aos entendidos em busca de matéria para o melhor jeito de dizer sim à celebração da vida.

No papel, alguns rabiscos ensaiam o melhor traço de um visual feminino para a nova etapa. Quero, a qualquer custo, conceber uma produção completa da aparência ideal de uma mulher autossuficiente, encaixada em novo tempo. Entre tantos rascunhos, finalmente a inspiração passada a limpo, onde nem limites o corpo encontra para a imaginação. À espera, talvez, do encantamento da palavra dita no desdobrar de cada item da nova receita.

Antes de tudo, todo o preparo começa com a boa forma. Um mergulho insone numa dieta balanceada, incluindo ingestão diária de serenidade regada à paciência. Para acelerar o processo, é indispensável a abstenção total dos alimentos colhidos na horta do infortúnio alheio. E tal como uma modelo, todo o esmero é pouco para desfilar na passarela da vida sob o foco da certeza de si.

É preciso remover da face os ácaros da desilusão acumulada em placas. Espalhar o tônico da esperança para dispersar os vincos nas áreas afetadas pela impressão do desgosto ao redor dos olhos e boca. E, em hipótese alguma, jamais se deixar suspensa na gota de uma lágrima. As feridas deixadas por espinhos cedem ao poder das compressas mornas de simpatia que adoçam a vida por perto.

Cuidado que não falte, está no despir-se de toda a veste da mágoa, e imergir num banho de contato com a essência divina no mais recôndito interior. Aplicar sobre as manchas remanescentes da fúria, um esfoliante com os grãos abrasivos do perdão. Secar a umidade com o bom senso e hidratar os poros com a leveza. Nos cabelos, amaciantes doces que tornem os fios sedosos ao toque das mãos que se desvelam em conciliar, mitigar, aplacar. No vestir-se, a classe é a melhor roupa, a inteligência é a melhor joia, a discrição, o toque mais elegante.

Na maquiagem, a sutileza dos detalhes complementa a difícil arte de injetar a alegria sob a pele para iluminar o semblante. Cortinando as janelas do olhar, cílios à prova de choro devem filtrar a poeira radiativa que corrói os relacionamentos. O colírio do discernimento deve descongestionar a visão e abrir a mente para melhor enxergar o que de bom tem o semelhante. Na boca, o batom deve armar um sorriso de plenitude e realçar o alvo esmalte de palavras mansas, próprias de quem sabe ouvir.

Por fim, a inoculação do amor e da compaixão sob a língua garantem irradiar a harmonia que vem de dentro e equilibrar o fluxo hormonal com perfeição. Com a ressalva de que o abuso dessa combinação remete ao efeito colateral inconfundível da manifestação da ternura. O acabamento de toda a produção se dá com a vaporização dosada do perfume da força e graça de ser uma pessoa de bem.

Descubro, depois da fórmula pronta, que careço de ajustes para caber nos contornos do novo desenho. O resultado demanda esforço e disciplina com pés capazes de segurar o chão. É como cruzar desertos na crença de que ainda existem oásis no caminho. Mas quero estar pronta para o brinde, mesmo que no aniversário vindouro, mesmo que me esqueça de tudo quando o ano findar.

E assim, ainda que com mangas arregaçadas na refrega do quotidiano, quero me ver sempre, no reflexo das paredes, com este traje glamouroso da vontade de acertar, enfeitado com o afloramento das minhas melhores qualidades a quem de mim for próximo.

Esta é a minha proposta para ficar bem na foto do outro lado, no outro mundo, noutra vida.

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CRÔNICA 54

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sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

RETRATO DE UM DIA SÓ

A leve garoa deste inverno dispersa o confuso rumor da vida em movimento nas ruas. O tempo sentado à beira do dia, a tudo observa. Com seu sopro, seu fuso, sua adaga, entrecorta os caminhos de cada um, apontando a feitura de anos atrás de outros anos com dias como o de hoje. Desse jeito assim, em manhãs que hesitam entre chover ou só nublar. Manhãs minhas e dos outros, dentro da maré que leva e traz o mar manso ou revolto às praias do nosso sentir. E logo depois chegam as noites fora dos calendários. Aquelas que ensinam os mistérios da vida e que se demoram tanto, que o dormir e o acordar podem custar séculos. Séculos de memórias.

Eu e meus pensamentos percorremos meio mundo da cidade esta manhã. Quero guardar um panorama dos acasos de um dia só. Procuro inspiração nas paredes das casas que me viram passar. Mas foi na pequena praça ao lado do semáforo vermelho, que pintei este retrato. A pracinha faz um bem-casado com a igreja da paróquia. Ensombrado por árvores de maior porte cercadas de bancos de concreto, o largo oferece um oásis convidativo ao lazer. Borbulha o trânsito de pessoas por ali. Enquanto o congestionamento me segura em vários ciclos do farol, observo a paisagem humana ao redor.

Meu olhar se planta com uma carga de ternura sobre um casal de idosos que caminha de mãos dadas, carregando pencas de bravuras nas histórias para manter o laço até à velhice. A criança robusta tem o rubro nas bochechas pelo esforço em suster a coleira do cãozinho no encalço de um pombo mais que abusado bicando no chão. O barulho de um grupo de jovens irrompendo praça adentro derrama adrenalina na trilha de caminhada. Num banco mais distante, o jornal aberto para leitura, recebe o disparo de uma bola de tênis do garotinho de cabelos encaracolados afoito em ganhar a atenção do distraído pai. Nessa mesma hora, arrastando o peso dos anos nos pés, dois aposentados animados portam um tabuleiro à procura de um canto para o habitual jogo de xadrez. Mais afastado, os dois jovens namorados passeiam devagar, levando o sol dentro de si. Ao lado, na borda da jardineira de Ixoras, as mãos trêmulas da velha senhora perambulam por fotos antigas a lhe trazer a comoção do passado. Sob a sombra do imenso Flamboaiã ao centro, uma mãe em idade de primavera se aplica extremosa em ajustar o andar trôpego do filho deficiente, como se cuidasse de uma flor em redoma. E o efeito colateral do amor cresce na pele de quantos virem aquele quadro.

No outro lado da rua corre a tênue luz dum mundo já sem mundos, para o moleque entregue ao fundo abandono e tão consumido pela fome. Recebe com quatro mãos a latinha com sobra de refrigerante de um estudante que passa com fone de ouvido e andar ritmado pela música. Espichando o olhar comprido de solidão, dá ouvidos ao coração e ri das travessuras das crianças na praça. E enquanto recordações soturnas alimentam as suas horas nos ponteiros do relógio da capela, espera a sorte lhe atirar um bocado qualquer de comida a lhe sustentar os ossos naquele dia. Quem lhe dera que tanto sofrer passasse, ou não passando, sarasse...

Os hábitos urbanos da cidade grande embrutecem a percepção e judiam dos nossos sentidos, mas penso que o ser humano, onde quer que se encontre, tem uma enorme necessidade de se relacionar e ser feliz. Cada um, do seu jeito, vive e se relaciona da forma que aprendeu. Desde cedo, despeja no trato quotidiano habilidades de convivência incorporadas, ainda que o silêncio seja todo assunto que tenha para contar.

As relações são a trama da vida, onde o aprender a amar transforma o viver em uma arte. Amar e relacionar-se têm o mesmo sentido. Somos desenhados para nos conectarmos, marchamos em contínuo exercício de enviarmos e recebermos mensagens em relações presenciais e virtuais com o semelhante. Somos inseparáveis do Universo e vivemos numa rede de relações que inclui tudo, não importando nossa anuência ou ciência disso. Não existimos separadamente dos demais, nossos sentimentos próprios se misturam às realidades alheias. Há um elo entre nós próprios e todas as almas.

Quando nossa alma interage com a nossa realidade em perfeita consciência e harmonia, o amor também se expande e a tudo abarca. Requisito necessário é o amor a quem persegue a felicidade.

Comunicar-se praticando a empatia, colocar-se no lugar do outro  – no meu pensar – garante o preparo para a ciência e arte do relacionamento e para a experiência de se conectar. Como o nome por dentro das fotografias dos personagens deste conto, soletrando os números dos encontros e desencontros vividos.

O verde do sinal me chama de volta ao trânsito. O aroma desta manhã cinzenta deu acabamento à minha obra. Sigo pela via lentamente, ajustando minha biografia e guardando o que de bom me trouxeram as relações, sem catalogar os reveses, porque seria como arrancar penas a pássaros feridos. Meus passos estão de visita neste cenário, mas têm o desígnio de me ascender ao conhecimento pleno do meu deserto onde cultivo canteiros de mudas das lições que aprendo.

É preciso buscar ser feliz para descobrir em que medida o amor é dosado, para que a vida não seja em vão. No retrato deste dia, há sonhos, sorrisos, silêncios, coração. E enquanto houver coração, o amor terá abrigo.
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CRÔNICA 53

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sábado, 17 de dezembro de 2011

NOVO EU

Quando o calendário inicia a contagem do último mês do ano, Céus e Terra falam de celebrações. Nesta época, a temperatura foge da medida das quatro estações e cria um clima único, com cheiro próprio de festas para aninhar o contagiante espírito natalino. A aragem vibrante, típica desse período na minha cidade, borrifa as acácias floridas, enche a copa das árvores de gracioso movimento e o tempo começa a pulsar desde o raiar das manhãs. É o fim do ano trazendo a graça dos seus ares.

A esperança parece tomar corpo em nossa forma de pensar e agir, à beira dos ventos de um entusiasmo incontido a desenhar a ternura dos dias de Dezembro. Os rituais preparatórios dos festejos calibram os batimentos dos temperamentos mais afoitos. No calor preliminar de fetiches e fantasias, torres de presentes são montadas com euforia, totens de conquistas são construídos e armados como troféus. Risos, ceias e brindes estão na pauta da contagem regressiva. Neste ciclo mágico, um ânimo intenso de espiritualidade me nasce precoce no sangue, e coloca minh’alma encoberta embaixo de cada lembrança que me traz o Natal.

Mas aqui percebo que os natais me custam alguns questionamentos sobre a verdadeira essência deste evento. E me pergunto se nesta data, o nascimento do Divino Nazareno – o Rei dos excluídos de todos os tempos – está, de verdade, no foco das comemorações entre os povos. Às vezes me parece que a herança de Amor sem fronteiras legada por Jesus de Nazaré ainda não transvazou para as artérias de muitos. Enquanto grande parte da burguesia aguarda o Natal assentada em suas riquezas, enclausurada em si mesma, o portal da exclusão social se faz acanhado, reunido na solidariedade de poucos. Muitos são os chamados, mas poucos são os que atendem ao convite para uma ajuda humanitária. Pessoas em todo o Globo se confraternizam com o nascimento do Sublime Galileu para vê-lo morrer, no instante seguinte... em cada palavra impregnada de silêncios, em cada gesto de descaso, em cada omissão consciente, em cada destrato à vida.

Entre as luzes de adorno que ornam as sombras urbanas e tingem o céu de vapores afogueados, reina a lua cheia como testemunha soberana, quieta e taciturna como meu coração condolente, a escutar o sussurro da humanidade imersa no burburinho das vésperas.

O Universo transborda, inundado de votos e pedidos enviados ao cosmos, vindos de um mundo controverso. Na senda dos espaços incomensuráveis, a atmosfera leva o coro das vozes dos homens de bem, mas está intoxicada com a ganância dos homens de pouca fé. Homens que se dizem civilizados, mas não conseguem viver sem ensanguentar a paz com gritos sequiosos de guerra, ou sem transformar o paraíso terrestre em um inferno de queimadas, de lençóis freáticos envenenados, de florestas ceifadas, de espécimes animais dizimadas. Homens de fé nenhuma capazes de tornar o mais fecundo oásis em deserto árido e inóspito, onde milhares de crianças esquálidas e famintas, sofrendo suas dores no corpo e na alma, sequer dispõem de forças para cantar “Noite Feliz”. Sob o lume trêmulo do desejo de sobreviver, essas vítimas do abandono, ainda que acometidas pelo mesmo mal, acariciam o uivo da fome dos irmãos menores, com o estômago encostado na espinha e os olhos a fugir das órbitas, varados de banzo pelos entes queridos que se quedam no caminho. Anseiam pelo milagre de um simples ato humano a estender-lhes a mão e saciar-lhes a fome de amor.

Aquelas imagens todas teimam em colidir-me de frente e se precipitam sobre as minhas mãos pensativas. É que a existência tem gosto ácido para quem desenvolveu a postura de estar comprometido com a vida. É preciso chama para sonhar o belo, forças para realizar o útil, porque o real é indócil, complexo e farto de distrações. Por isso, a cada ano, morremos um pouco na impotência de mudar o mundo, de cobrir com bálsamos o mar das esperas dos aflitos, cujas lágrimas furtivas expõem almas em frangalhos. Para que este Natal seja real, como apregoam as crenças e a mídia consumista, precisamos recriar o amanhã.

Um amanhã com espaço alinhado ao coletivo. Porque o Sol e a Lua se revezam para nos trazer os dias e as noites, à espera de nossas férteis ações. Porém, quase sempre os nossos propósitos pairam no traçado das ideias. Planos de mudar, reparar, avançar, são renovados em soberbos discursos de elegantes vocábulos sem convicção nenhuma. Desejos de ser e fazer melhor, tinem no levantar de taças e cálices para os brindes ao clarão dos fogos de artifício do dia 25. Mas, tal qual as bolhas do vinho espumante, todas as promessas morrem no céu da boca, não chegam até o coração. Nada acontece. A metamorfose não se perfaz. Há que se abrir a tampa do peito para uma faxina. Começarmos os preparativos por nós mesmos perscrutando o nosso interior, já é um bom ganho. Há pesos a levantar que são nossos ossos pessoais, até nos colocarmos em paz com as pessoas do nosso convívio. Olharmos em volta da nossa cômoda rotina e enxergarmos as possibilidades para socorrermos os que nos estão próximos ou distantes, é o vitorioso passo seguinte. Aqui está o mistério da nossa fé: a capacidade de sairmos de nós mesmos e nos arriscarmos a fazer diferença. Penso que é assim que nasce uma nova pessoa em nós: com uma mudança de atitude, a partir de uma tomada de consciência.   

E na noite em que a Luz nasceu, imagino que também há algo espiritual que possa ligar a figura dos profetas, dos monges, dos poetas, dos filósofos, dos homens de boa vontade, de todos os credos, raças e castas, para magnetizar o hálito das palavras numa oração, que em uníssono, potencialize o nosso contato com o Altíssimo.

Tal como os Reis Magos guiados pela Estrela de Belém, podemos depositar ao pé da manjedoura a nossa prece. Em nome do amor universal, como se no Presépio estivéssemos, elevamos o nosso pensamento ao Jesus Menino e, numa comunhão cósmica e transcendental, pedimos pela recuperação dos sofridos e indefesos irmãos onde quer que estejam. Pela restauração do Planeta dilapidado, com a Natureza em decadência. Pela elevação da consciência dos que exercem o poder de mando sobre as Nações. Pelo milagre da transformação no coração dos ímpios. Pela expansão da paz entre todos. E deixamos como penhor do pedido, a garantia de fazermos a nossa parte, ainda que com pernas trôpegas.

Que o brilho do Amor sacramente o nosso envolvimento com o novo ser desperto em nós nesta noite, para que perdure por todas as noites das nossas vidas.

Hosanas ao nosso “novo eu”!

Assim eu acredito em mudanças. Podemos brindar.

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CRÔNICA 52

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