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quarta-feira, 16 de maio de 2012

A VERDADEIRA AUTORIDADE


Um poeta americano de nome Ralph Waldo Emerson, disse apropriadamente: “Quem você é, fala tão alto, que não consigo ouvir o que você está dizendo”.

Era quase noite naquela agitação típica de ambiente de shopping, com direito a todo tipo de burburinho gerado pelas promoções da estação. Muita gente, muitas compras, nenhuma vaga. Na fila do caixa do Café mais frequentado, aguardava inquieta, com a pressa ditada pelos ponteiros do meu relógio atolado de compromissos. Justo naquele horário, meio mundo combinou um ajuntamento na mesma Cafeteria. E a afluência de interessados alongava a procissão que avançava a palmos. Todos falavam ao mesmo tempo entre si ou ao celular, atropelando-se com sacolas de desculpas. Invocar toda santa paciência me parecia razoável. A qualquer instante, a fila haveria de andar. Próximo ao balcão, enquanto o adolescente conferia o dinheiro para o pagamento do lanche, o pai exibia com uma piscadela, as habilidades em subtrair e devorar sorrateiramente um elaborado petisco da cesta ao lado. Travessura de pronto festejada no cúmplice cumprimento espalmando as mãos. Só que pouco mais atrás, o moleque de cabelo em corte militar, agarrado à saia da distraída mãe, presenciou a cena com as orelhas em antena do tipo parabólica captando sinais. E no momento seguido, aquele garoto de viva expressão, passou de expectador a protagonista de outra história. Tal qual um ator em franco ensaio para estreia, se esgueirou entre os adultos até à bandeja de salgados, e invisível sob as vistas de uma multidão, apanhou todas as guloseimas ao alcance da mão. Com a voracidade de uma draga, escondeu todos os troféus no bolso do casaco esportivo. Incontido, cerrou os punhos num gesto de vitória, comemorando a proeza aprendida mais rápido que o cair de uma estrela.

Imagino que cada atitude, palavra ou gesto nosso está sendo escaneado e costurado com todos os fragmentos no campo de observação dos que nos cercam, em todo lugar. E fatalmente tal testemunho abrirá ressonância na estrada dos que interagiram com os nossos atos, muitas vezes ao ponto de virar a chave do trilho para direções promissoras ou tortuosas, dependendo das inspirações recebidas de nós.

Mas muitos são os que permanecem aferrolhados ao reiterado hábito de mentir um bocadinho com meias verdades, de induzir terceiros a confirmar inverdades, de sugerir procedimentos pouco éticos, sem se dar conta de que o vil proceder retira a autoridade moral de exigir ou esperar qualquer conduta digna ou leal de alguém.

Assim como tantos outros se valem do cargo investido para imprimir pelo temor reverencial, seus feitos questionáveis, infamados pela total ausência de princípios ou escrúpulos.

Não percebem que o falso moralismo petrifica o merecimento do respeito, condição maior de todas para o acatamento pessoal. Apregoam soluções para os males deste mundo e carregam na boca palavras cintilantes, mas na penumbra, se comprazem em libertinagens. Diante do espelho, o olhar foge à censura pelas manobras escuras para parecer sem ser. Parecer ser bom sem ser realmente do bem. No dúbio viver, com um pé nas aparências e outro no charco, quando a própria alma não lhe reconhece o corpo, arremessam para longe a grandeza da integridade humana, intoxicam a formação de todos os que participam do mesmo convívio e contribuem para consolidar uma sociedade moralmente enferma.

Na moldura do quadro, a reveladora luz da verdade levanta a capa do retrato e prova que não é a posição que enaltece quem ocupa o posto, mas sim o comportamento moral com que a pessoa se conduz dentro dela. Somente as qualidades morais facultam a autonomia almejada, a deferência interior e silenciosa, fluída das profundezas da alma sem temor.

Essa sonhada autoridade moral se torna sólida no exemplo atestado pelos nossos atos. A verdadeira autoridade, aquela que envolve e convence pela própria postura, pisa macio nos arredores do peito e arrasta o coração de olhos fechados. Traz consigo um pedaço de céu limpo onde guardar a cabeça. É parte de quem tem domínio sobre si mesmo, controle por dentro da pele sobre as más inclinações para viver sob as normas do bom proceder.

De nada serve a atitude professoral vertida do alto de uma cátedra, se desacompanhada do exemplo, sem a prática do que prega. Não me refiro necessariamente à conquista das excelsas virtudes ou da excelência moral, mas sim à tentativa constante de acertar, ainda que tropegamente.

A responsabilidade pessoal sobre a direção para onde nossos passos levam outros pés, é patrimônio intransferível. A convivência com os que exercem alguma autoridade hierárquica baliza a tendência natural do discípulo a imitar, a fazer igual. E assim como a comunhão com os bons cimenta os valores morais na mente aberta de quem está perto, a esteira do mau exemplo amalgama o erro e o vício na jornada de vontades mais frágeis. 

Se quisermos existir para sempre, para além das histórias, o exemplo é a senha mais curta para a imortalidade. O mais contundente método de educação, o melhor exercício de caridade, a mais gratificante de todas as tarefas de casa. Ser amostra viva de lições de vida, de mensagens úteis para serem lidas e repetidas pelos que transitam ao nosso redor.

Quem sabe assim, seja gradualmente extinta a fase em que o homem – criatura mortal e imperfeita – escancara sem pudor, total desprezo ao nobre, ao certo, ao justo.

Quem sabe seja possível, a vinda de um tempo em que uma nova consciência venha germinar novos conceitos a despertar nos espíritos o caminho de um futuro mais são. Quando o respeito mútuo argole, por extensão, o respeito à vida, à família, às diferenças. Quando a humanização da humanidade escale os cumes da evolução e se faça latente em tudo que represente a razão da existência.

Enquanto isso, penso que a ética e a moral são requisições prementes para a construção dessa nova era. Carece, por ser de vital importância, a certeza de deixarmos um bom exemplo, um rastro positivo, uma imagem espiritual em boa estampa para todos os que cruzaram a nossa passagem neste Planeta. Certamente num amanhã, todos eles estarão à nossa espera após a grande viagem, com os frutos bons ou ruins das sementes que lhes plantamos aqui com o nosso modo certo ou errado de ser. Disso, não tenho dúvida.

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CRÔNICA 55

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sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

RETRATO DE UM DIA SÓ

A leve garoa deste inverno dispersa o confuso rumor da vida em movimento nas ruas. O tempo sentado à beira do dia, a tudo observa. Com seu sopro, seu fuso, sua adaga, entrecorta os caminhos de cada um, apontando a feitura de anos atrás de outros anos com dias como o de hoje. Desse jeito assim, em manhãs que hesitam entre chover ou só nublar. Manhãs minhas e dos outros, dentro da maré que leva e traz o mar manso ou revolto às praias do nosso sentir. E logo depois chegam as noites fora dos calendários. Aquelas que ensinam os mistérios da vida e que se demoram tanto, que o dormir e o acordar podem custar séculos. Séculos de memórias.

Eu e meus pensamentos percorremos meio mundo da cidade esta manhã. Quero guardar um panorama dos acasos de um dia só. Procuro inspiração nas paredes das casas que me viram passar. Mas foi na pequena praça ao lado do semáforo vermelho, que pintei este retrato. A pracinha faz um bem-casado com a igreja da paróquia. Ensombrado por árvores de maior porte cercadas de bancos de concreto, o largo oferece um oásis convidativo ao lazer. Borbulha o trânsito de pessoas por ali. Enquanto o congestionamento me segura em vários ciclos do farol, observo a paisagem humana ao redor.

Meu olhar se planta com uma carga de ternura sobre um casal de idosos que caminha de mãos dadas, carregando pencas de bravuras nas histórias para manter o laço até à velhice. A criança robusta tem o rubro nas bochechas pelo esforço em suster a coleira do cãozinho no encalço de um pombo mais que abusado bicando no chão. O barulho de um grupo de jovens irrompendo praça adentro derrama adrenalina na trilha de caminhada. Num banco mais distante, o jornal aberto para leitura, recebe o disparo de uma bola de tênis do garotinho de cabelos encaracolados afoito em ganhar a atenção do distraído pai. Nessa mesma hora, arrastando o peso dos anos nos pés, dois aposentados animados portam um tabuleiro à procura de um canto para o habitual jogo de xadrez. Mais afastado, os dois jovens namorados passeiam devagar, levando o sol dentro de si. Ao lado, na borda da jardineira de Ixoras, as mãos trêmulas da velha senhora perambulam por fotos antigas a lhe trazer a comoção do passado. Sob a sombra do imenso Flamboaiã ao centro, uma mãe em idade de primavera se aplica extremosa em ajustar o andar trôpego do filho deficiente, como se cuidasse de uma flor em redoma. E o efeito colateral do amor cresce na pele de quantos virem aquele quadro.

No outro lado da rua corre a tênue luz dum mundo já sem mundos, para o moleque entregue ao fundo abandono e tão consumido pela fome. Recebe com quatro mãos a latinha com sobra de refrigerante de um estudante que passa com fone de ouvido e andar ritmado pela música. Espichando o olhar comprido de solidão, dá ouvidos ao coração e ri das travessuras das crianças na praça. E enquanto recordações soturnas alimentam as suas horas nos ponteiros do relógio da capela, espera a sorte lhe atirar um bocado qualquer de comida a lhe sustentar os ossos naquele dia. Quem lhe dera que tanto sofrer passasse, ou não passando, sarasse...

Os hábitos urbanos da cidade grande embrutecem a percepção e judiam dos nossos sentidos, mas penso que o ser humano, onde quer que se encontre, tem uma enorme necessidade de se relacionar e ser feliz. Cada um, do seu jeito, vive e se relaciona da forma que aprendeu. Desde cedo, despeja no trato quotidiano habilidades de convivência incorporadas, ainda que o silêncio seja todo assunto que tenha para contar.

As relações são a trama da vida, onde o aprender a amar transforma o viver em uma arte. Amar e relacionar-se têm o mesmo sentido. Somos desenhados para nos conectarmos, marchamos em contínuo exercício de enviarmos e recebermos mensagens em relações presenciais e virtuais com o semelhante. Somos inseparáveis do Universo e vivemos numa rede de relações que inclui tudo, não importando nossa anuência ou ciência disso. Não existimos separadamente dos demais, nossos sentimentos próprios se misturam às realidades alheias. Há um elo entre nós próprios e todas as almas.

Quando nossa alma interage com a nossa realidade em perfeita consciência e harmonia, o amor também se expande e a tudo abarca. Requisito necessário é o amor a quem persegue a felicidade.

Comunicar-se praticando a empatia, colocar-se no lugar do outro   no meu pensar – garante o preparo para a ciência e arte do relacionamento e para a experiência de se conectar. Como o nome por dentro das fotografias dos personagens deste conto, soletrando os números dos encontros e desencontros vividos.

O verde do sinal me chama de volta ao trânsito. O aroma desta manhã cinzenta deu acabamento à minha obra. Sigo pela via lentamente, ajustando minha biografia e guardando o que de bom me trouxeram as relações, sem catalogar os reveses, porque seria como arrancar penas a pássaros feridos. Meus passos estão de visita neste cenário, mas têm o desígnio de me ascender ao conhecimento pleno do meu deserto onde cultivo canteiros de mudas das lições que aprendo.

É preciso buscar ser feliz para descobrir em que medida o amor é dosado, para que a vida não seja em vão. No retrato deste dia, há sonhos, sorrisos, silêncios, coração. E enquanto houver coração, o amor terá abrigo.
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CRÔNICA 53

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segunda-feira, 14 de novembro de 2011

EM TRÂNSITO COM O INIMIGO

Na porta de saída do shopping a chuva miúda desencorajava o acesso aos carros no estacionamento. Enquanto avaliava a disposição das nuvens para derramar tantos pingos com aquela impudente preguiça, pressenti um olhar insistente de alguém sobre mim. Voltei a cabeça para o lado e reconheci um semblante de outros tempos. Ela, sempre tão próspera, mantinha a íris fumegando ao clicar cada movimento meu. O mesmo olhar fulminante do passado me escaneava de cima a baixo, mapeando cada possível alteração entre o ontem e o hoje. Tudo naqueles olhos gotejava iras amordaçadas. Era ela, à época, uma conta do meu rosário de penitências, um desafeto de papel passado com ideia fixa em me declarar guerra. Ora pela concorrência tola por notas no curso acadêmico, ora por outras miudezas do mesmo naipe. Instintivamente, um arquivo da minha coleção de fábulas foi carregado na minha memória ram, mais ou menos nestes termos:

Um inocente vaga-lume movia-se fosforescendo entre a folhagem que cobria o chão da floresta com um manto verde-musgo. Tal como uma estrela sozinha, alumiava todo o raio de alcance de sua pequena centelha, simplesmente, por dar o melhor de si. Cintilar era sua especialidade e as noites eram suas naquele mundo onde as sombras se banhavam no clarão do luar, porém o seu pisca-piscar intenso sinalizava a direção do seu rastro. Uma serpente de hábitos noturnos, rastejando a densa relva, percebeu na escuridão as faíscas luminosas enfeitando os arbustos. Quieta, sob os ramos soltos, mirava entre uma e outra nesga de luz aquele sobrevoo rico de lampejos. E como a noite dali lhe parecia mais bonita!... Invadida por sentimentos tormentosos, inquietou-se com a marcante presença do pequeno inseto. Querer ser assim não basta, há que destruir quem o é. Decidiu aniquilá-lo e deu início a uma implacável perseguição sem trégua. O pirilampo, tomado de pânico, desconhecendo as razões para tamanha fúria, ocultava-se do foco hipnótico da feroz predadora e disparava numa corrida sem norte. Assustado e ofegante, embrenhava-se erradio mata a dentro, sem faiscar, à procura de um socorro. O agoniado encalço prolongou-se por três dias, mas a peçonhenta não desistia, obcecada em eliminar da sua vista criatura com tal recurso. Já de fato, não mais restava, nem tempo, nem energia para aquele pequeno corpo livrar-se da treva de tão grande ameaça. Acossado na cavidade de uma rocha, cansado e já sem forças, o vaga-lume, sem saber que rumo dar às lágrimas, perguntou à cruel caçadora: - Posso lhe fazer uma pergunta? - Não costumo abrir esse precedente para ninguém - respondeu o réptil com olhar de desdém - mas já que vou te devorar mesmo, pode perguntar. Gaguejando, a vítima encerada por todos os medos, arriscou: - Pertenço a sua cadeia alimentar? – Não – resmungou a rastejante com indiferença. Intrigado com a falta de propósito, prosseguiu o vaga-lume: - Eu te fiz algum mal? – Não - bufou a cobra, serpenteando para mais perto. Nesse momento, o ofídio venenoso se enrodilhava impaciente, armando o bote fatal. Atônito, sentindo o hálito tétrico da morte a paralisar suas minúsculas asas, o frágil inseto ainda quis saber: - Então, por que me persegue, por que você  quer acabar comigo? Num berro retinindo lá das vísceras, a víbora revelou: - Porque não suporto ver você brilhar!

O quotidiano da humanidade está infestado de cobras perseguindo vaga-lumes. De condutas prejudiciais violando valores, só pela volúpia de vencer. De gente atropelando gente disputando vanglórias, quando a inveja e despeito inúteis rivalizam próximos e até distantes. Carece estar alerta para sair com um mínimo de escoriações das investidas adversas. Escolher em quem confiar tornou-se questão de sobrevivência. Resguardar-se da exposição a bombardeios diários de ondas e atitudes escuras nas relações sociais e profissionais, é investimento em saúde.

Na escola da vida real, essa aula de convivência com o inimigo em trânsito nesta dimensão terrena, é de difícil assimilação para alguns. Extremamente difícil, eu diria, quando se sofre um ataque injusto vindo de alguém semelhante a nós: mortais nascidos para um processo de experimentação de viver e aprender. Nessas circunstâncias, a tendência do espírito ferido é empunhar as armas e levantar a foice para o golpe. É quando as energias negativas da raiva derivada de tais experiências, cravam resíduos de intoxicação no próprio campo magnético do emissor, abrindo um círculo de poluição tão denso que somatiza, inexoravelmente, as doenças no corpo físico. 

Todo esse circuito nocivo é regado, desde a raiz, pela emoção liberada no ressentimento. O ressentir é o mesmo que sentir de novo o que já passou. É como ignorar o presente e dar as costas ao futuro, privar-se do progresso e da prosperidade. Urge desatar tal fardo. Deixar de ressentir é se libertar. Ninguém, em mente sã, se dispõe a ficar prisioneiro de algo que faz mal a si mesmo, normal é almejar se livrar de tal suplício. Assim, a atitude que neutraliza o ressentimento, a vacina que imuniza contra a corrosão do ressentir, se chama... perdão.

Bem sei, parece teoria fantasiosa de inviável aplicação prática, mas perdoar é uma atitude racional, é um ato inteligente de autopreservação. É uma religião no sentido de religar-se a Deus pela compreensão de si mesmo. O perdão é interior, ocorre em domínio reservado do nosso plano mental. Não requer reconciliação ou uma exteriorização amistosa com o ofensor. Não significa aceitar o comportamento que nos prejudicou ou que ofendeu a outros, nem renunciar valores que foram profanados. É um “deixar ir”, um corte para desprender o grilhão, uma permissão a si mesmo para ser livre.

Porém, o primeiro passo para perdoar é o querer. Um querer pessoal, intransferível e urgente, mas quem se demora na margem, sofre atraso em caminho. No caminho do avanço, da mágica transcendência no contexto da experiência humana.

Finalmente, a chuva buscou outros pastos e deixou uma fina garoa a lembrar de sua passagem naquela tarde. Todos começaram a se dispersar e esvaziar a porta. A minha arqui-inimiga continuava recostada no portal de entrada numa moldura de gelo e ranço. O olhar de Medusa pronto a me petrificar, certamente não deixa no peito o coração enxergar de dentro. Inevitável cruzar com a sua presença na passagem para a saída. Nunca entendi que proveito teria a hostilidade ostensiva e obstinada daquela colega, a troco de insignificâncias, mas sei que há lutas e dores que só o Juiz Supremo pode julgar em sã consciência. Avançando para o lado de fora do shopping, reunindo tudo que já aprendi, olhei de frente para a moça e entre um ligeiro meio sorriso, pronunciei mentalmente estas palavras sem mexer os lábios: “Em pensamento eu te saúdo”. E fui passando. Não importa se isso teria ou não algum efeito, alguma validade ou qualquer mérito. Mais uma vez, emiti um selo de concórdia. Saí em paz.

Namastê

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CRÔNICA 51

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sábado, 8 de janeiro de 2011

O CELULAR NOSSO DE TODOS OS DIAS

A chuva abriu a nova estação sem avisar. Algumas nuvens cor de chumbo, àquela hora da manhã, passavam carregadas, tão baixinho, que na saída do shopping meu pensamento bateu numa delas e colheu um anúncio de friagem caindo o resto do dia. Caminhava para o estacionamento aberto me ocultando dos pingos sob o casaco úmido, como uma ave que agasalha a cabeça sob as asas molhadas. A pressa me pedia prudência para olhar o chão onde ia pisando. De repente, no estreito espaço entre uma vaga e outra, a surpresa de um estranho movimento no piso bloqueando a passagem, me barrou estática, até que eu pudesse entender o que se passava à minha frente: na pista encharcada, um par de pernas salpicadas de lama impulsionava o tronco de um homem bem vestido agachado embaixo de uma Triton Mitsubishi. Calcando o lustroso sapato contra o solo, no melhor estilo lagartixa, aventurava-se mergulhar mais fundo e assim alcançar algo tão precioso que valia o risco de perder o terno ou comprometer a própria integridade física num bizarro acidente. Ao perceber que alguém observava, levantou a voz com certo embaraço: “Tá tudo bem! É o meu iPhone que resvalou pra baixo desse carro e eu estou resgatando o aparelho”. Ufa, era apenas uma operação de salvamento de um... celular. Retomei minha marcha repensando com os meus botões: “Um minúsculo objeto eletrônico concorre pela posição top na escala de desejos ditada pela ‘modernidade’ e, não raro, recebe mais atenção e energia do que qualquer ente querido mais próximo”.

Em tão curto tempo o celular tornou-se quase um periférico da máquina humana. Ganhou status de parceiro na convivência com o homem moderno, criando uma relação de dependência explícita: dorme e acorda junto, frequenta o mesmo banheiro, descansa incondicionalmente pertinho dos seus braços, recebe o calor das suas mãos mais vezes que qualquer animal de estimação, acompanha sua rotina atrelado a tiracolo, apossa-se de vaga privilegiada em sua memória e tem residência fixa entre o seu ouvido e a boca. E, se por um eventual descuido, seu senhor (ou escravo?) dele se separar ou se descobrir desacompanhado desse “gênero da maior de todas as necessidades”, sente-se nu, impotente, incompleto, vulnerável, literalmente fora do ar, entra em pânico e se atira a qualquer empreitada de risco para reavê-lo.

Penso que tudo isso é resultado de um dos efeitos colaterais dessa nova era em que vivemos. A simples possibilidade de se sentir incomunicável em qualquer lugar gera uma atormentada insegurança ao viciado nesse aparelhinho móvel, exótico e, muitas vezes, infernal. Infernal, principalmente, quando uma longa conversa fiada ao volante do carro abre o caos no trânsito, a expor condutores e transeuntes a danos irreversíveis. E essa festejada novidade atolada de utilidades, como toda “moeda de dois gumes”, esconde, na outra face, o risco de desenvolver doenças e distúrbios potencialmente vinculados à radiação eletromagnética emitida por suas ondas sobre mortais seres humanos. Mas todos os terráqueos antenados nas novas tendências portam consigo esse diminuto instrumento, ligados a uma infinidade de siglas da web que ultrapassam os confins da ficção, num mundo onde a multidão aumenta nas ruas, mas o sentimento de afastamento e isolamento é profuso. Onde as pessoas se conectam pela fala mais do que nunca, mas a solidão e a falta de solidariedade imperam absolutas. Onde as redes sociais se alastram por todos os pontos geográficos, mas a carência marca o passo e a ausência assina presença.

Sei que o avanço veloz da tecnologia nos flagra perplexos e arremessa, em doce melancolia, um ar de saudosismo ao passado. Um passado sem os sofisticados recursos trazidos pela Eletrônica, mas farto de reuniões com familiares, amigos, colegas, vizinhos, conhecidos... É inegável que, nos dias de hoje, o telefone móvel agrega numerosas vantagens garantidas pela propriedade de ser portátil. Como uma via de atalho, se transmuta em poderosa arma de ligação entre pessoas, sem limites de tempo, espaço, convicção política ou religiosa. E cada usuário desenvolve uma relação própria, peculiar com o seu brinquedo. Muita gente fustiga a orelha, por horas seguidas, na carenagem desse engenhosa ferramenta de comunicação. Têm, nela, a via de solução mais eficaz de seus assuntos pessoais e comandam através dela todas as suas operações diárias. São os casos que eu chamaria de assumida sujeição, ambos, felizes até a tampa. Também pessoas há, que atribuem ao celular a oscilação do seu nível de bem-estar, segundo a quantidade e origem dos telefonemas recebidos. As mensagens colecionadas balizam o seu estado de satisfação e computam o grau de agrado que o seu dia lhe traz. Outras criaturas, ainda, depositam no aparelho toda a sua concentração diária, empregando tempo e esforço na troca de torpedos ou na manipulação hipnótica dos recursos. Escravizadas pela frenética exploração das funções incorporadas ao seu modelo, fazem do telefone o seu objeto de devoção diária, o santo de suas horas ociosas. Vivem num mundo paralelo, alienadas de todo o resto, à margem de tudo.

Também me confesso aficionada por tecnologia, mas, no que se refere ao meu telefone celular, decidi, como razoável, a permanência mínima no seu campo de radiação, em ligações breves. Resisto, impassível, às suas habilidades de sedução e não permito sua ingerência indesejada no meu tempo, nos meus assuntos, no meu dia. Exerço eu o controle, dito eu as regras para permanecermos sob o mesmo teto. É assim que desfrutamos de uma convivência pacífica e harmoniosa. Usar e abusar do celular não está, ainda, regulado por regras de boa conduta, mas reclama as regras básicas embutidas no código do bom-tom e na lei do bom senso. "Tudo demais é muito", assim, carece encontrar o equilíbrio no uso e desuso dessa peça indispensável junto aos nossos apetrechos de guerra e paz, dia e noite.

Num rodízio de pizza, por exemplo, em casa ou na cervejaria, para jogar conversa fora ou tratar de temas longos, cabem aquelas extensas ideias trocadas em ligações intermináveis que calejam as sensíveis conchas da nossa audição. No velho hábito de arrumar as cadeiras nas calçadas, na frente das casas, cabem todas as trocas de notícias, como antigamente, quando tudo dependia mesmo do encanto do encontro, da dramaturgia da conversa, do gosto de aconchego da boa prosa acompanhada de risadas. Como dizia o meu pai, loquaz em sua fala sempre cheia de cor: “Compadre, para uma boa prosa, preparo uma galinha d’angola, resfrio um bom vinho no Domingo e lhe convido para almoçar”.

Por tudo isso, precisamos reaprender a abrir os olhos. Todos os dias a nossa vida passa frente a eles. Muitas vezes é no abrir dos olhos que nos descobrimos a avultar memórias. Mas se enxergarmos tardiamente, já quase nada nos pertence, porque os dias são efêmeros, é como acordar a tempo para o mundo, mas muito tarde para a vida. É preciso, de vez em quando, cancelar as ligações, desligar a campainha, emudecer o celular nosso de todos os dias, para ouvir o barulho do mar ou o assobio de uma rajada de vento. Ouvir o ruído do movimento à nossa volta, o som da vida, o clamor da consciência. Ouvir a voz do silêncio. Do silêncio que vem de dentro de nós para estabelecer o contato com as profundezas do nosso interior, onde Deus está. À espera da nossa chamada.


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CRÔNICA 41
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quarta-feira, 7 de outubro de 2009

O TRÂNSITO E OS NOSSOS LOBOS INTERNOS


No meio da manhã, o trânsito já configurava o caos. Impaciência e agressividade planavam no ar, convocadas pela desordem das obras na pista. O calor em ponto de combustão escaldava o asfalto e o juízo dos pedestres. Eram os congestionamentos de outubro fechando o verão com promessas de muito estresse. Cortadas súbitas e buzinas estridentes anunciavam um estado de contenda desenfreada entre os carros.

O semáforo fechou as intenções afoitas na via e, logo à minha frente, identifiquei o carro de um colega muito polido, semblante sempre sereno. Uma moto passou por mim e tentou aproveitar o estreito espaço para se posicionar na largada. Mas, em decorrência de irregularidades no solo e no bom senso do condutor, perdeu o equilíbrio e fatalmente roçou a pintura do belo modelo último tipo do nobre colega. Foi quando presenciei um espírito selvagem se materializar na guerra do trânsito: aquele gentil e ponderado causídico saiu do veículo com as mãos contraídas, olhar em chamas, narinas acesas e dentes cerrados, fechando os punhos embebidos de cólera no colarinho do assustado motociclista. De repente o alinhado terno converteu-se numa pele e eu tive a visão de um Pithecanthropus Erectus de volta à Pré-História.

Então, eu pensei alto: “Ele alimentou o lobo errado”. Essa expressão vem de uma historinha muito simples, mas que nunca esqueci, chama-se “Lobos Internos”:

Um ancião muito sábio encontrou o neto num estado de ira flagrante, por haver sofrido uma injustiça intolerável, por parte de um amigo da escola. O avô disse ao seu neto: "Deixe-me contar-lhe uma história. Eu mesmo, algumas vezes, imprimi ódio àqueles que se dispuseram a me prejudicar, sem qualquer arrependimento do mal que me fizeram. Todavia, o ódio corrói você, mas não fere seu inimigo. É o mesmo que tomar veneno, desejando que seu inimigo pereça. Travei muitas lutas contra estes sentimentos". E ele continuou: "É como se existissem dois lobos dentro de mim. Um deles é prudente e pacífico, vive em harmonia com todos ao seu redor e não se ofende quando não se teve intenção de ofender. Ele só lutará quando for certo assim fazer, e sempre da maneira correta. Ah!... mas, o outro lobo, este é exaltado. Mesmo as pequeninas coisas o lançam num ataque de fúria! Briga com todos, por qualquer motivo. Ele não consegue pensar porque sua sanha é extensa e constante. Tudo inútil, pois sua raiva não mudará coisa alguma para melhor, só causará muitos danos! Algumas vezes é difícil conviver com estes dois lobos dentro de mim, pois ambos tentam dominar meu espírito". O garoto, completamente envolvido por fala tão experiente, olhou intensamente nos olhos de seu avô e perguntou: "Qual deles vence, Vovô?" O avô sorriu e respondeu baixinho, em tom de segredo: "Aquele que eu alimento".

A violência de hoje nas ruas e estradas, me insinua uma correlação entre o trânsito e os nossos lobos internos. Nas vias públicas - uma selva inóspita - feras sanguinárias se travestem de motoristas protagonizando os vilões da sinistra prática de homicídios e vandalismos. Num ciclo de sandices, esses entes desatinados caçam, perseguem ou desacatam os que ousam obedecer às leis e às normas.

Existe, a meu ver, uma incongruência entre o que somos e em que tempo estamos: escalamos o terceiro milênio e adentramos na era da cibernética, onde tudo é provável e imprevisível; entretanto, o homem “civilizado” parece ter perdido o caminho para a espiritualidade, para a busca da evolução pessoal.

Nestes tempos politicamente incorretos, o automóvel – supostamente concebido para a libertação do homem em seus limites de tempo e espaço - tornou-se seu mais implacável executor, graças à irresponsabilidade e à impunidade vagando à solta por todo o País. Os personagens do tráfego – motorizados e pedestre - violam as regras básicas de segurança e bem-viver no trânsito, agindo, não como frutos de uma civilização prestes a desfrutar dos benefícios das estupendas invenções deste século, mas sim, como animais selvagens irracionais e desgovernados, surgidos de um caótico inferno interior, matando e morrendo, quase sempre por motivo fútil. Todos os dias testemunhamos um derrame macabro das funestas conseqüências dos abusos cometidos no circuito da malha viária, em total desrespeito à ética e à cidadania, em franco ataque à existência de outrem. São incontáveis vidas ceifadas ou que subsistem mutiladas, arrastando as suas dores, com os planos para o futuro condenados à escuridão.

É preciso nutrir campanhas permanentes da vida pela vida humana. As leis carecem sair do papel para que as autoridades e a sociedade adotem providências enérgicas, alterando esse fluxo trágico, e assim salvaguardar vidas humanas inocentes, sem preço. 

Penso que para atacar o mal na raiz para amainar esse pesadelo, a melhor de todas as armas é a educação. O assunto trânsito deveria estar inserido na grade curricular das escolas, como matéria obrigatória, por se tratar de investimento da maior importância a gerar proveito no futuro, quando as crianças de agora, conscientizadas e cientes de suas responsabilidades individuais em relação à coletividade, estarão com as mãos sobre um volante. Assim como a mídia deveria se dispor a participar na minoração dos males que afligem a sociedade, chamando à reflexão aqueles que já se distanciaram dos bancos escolares, e quem sabe, haveria também de produzir resultados imediatos sobre os que hoje dirigem qualquer tipo de condução.

O sinal abriu e o estado de beligerância retomou a pista. Na certeza de que falta muito para, na era da robótica, incorporarmos as vestes próprias do espírito civilizado, saí dali evocando uma mensagem de Aquenaton - faraó egípcio da XVIII dinastia:

A verdadeira sabedoria é menos presunçosa que a tolice.
O homem sábio duvida frequentemente e muda de ideia.
O homem tolo é obstinado e não muda nunca.
O tolo sabe de tudo, menos da sua própria ignorância.


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CRÔNICA 24
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sábado, 15 de agosto de 2009

CASO INSÓLITO


Num shopping movimentado da minha cidade, um compromisso me aguardava no complexo comercial, computando significativo retardo no meu horário de chegada. O marcador de horas do celular insistia em distanciar rapidamente a tarde já consumida para realçar o meu atraso.

Seguindo uma previsão calculada para cumprir meu intento, pressionei o botão do elevador com pressa. Três adolescentes entraram logo atrás. Ao fechar a porta, estávamos os quatro civilizadamente juntos quando, de chofre, começou uma sessão de pancadaria entre os três garotos: duas mocinhas e um rapazinho bem crescidos. O rapaz era golpeado duramente pelas meninas com socos e pontapés violentos. Defendia-se protegendo o rosto com as mãos, virando a face contra a parede, encolhendo o corpo e enterrando a dignidade peito adentro. As mochilas das garotas converteram-se em ferozes armas de combate contra a cabeça, as costas e as pernas da vítima. Os murros ressoavam pesado no metal da parede do elevador. Tudo acontecia sob a moldura de abafado silêncio. Fiquei petrificada. Eu me senti uma colina desaterrando em queda livre sobre um rio de sobressaltos. O susto me sugeria terrorismo, seqüestro, ação de quadrilha... O tempo parecia estar do avesso, pois o relógio engoliu muitos séculos em alguns segundos. A claustrofobia e outros parentes dela se refestelaram no meu fôlego. O confinamento com os potenciais psicopatas me apontava o risco de ser a próxima na lista de esquartejamento. Finalmente o elevador se recobrou da hibernação de mil anos e sinalizou a abertura da porta. O garoto, ofegante, passou os dedos arrumando os cabelos, as meninas recuperaram a postura e saíram abraçadas e rindo. Mas os olhos do rapaz bem sabiam onde foram parar as dores. Atordoado, carregava na fronte a marca de dias menos felizes. Levava nas mãos apodrecidas pelo medo o peso de uma sentença. Não consegui decifrar a razão daquele procedimento, mas o evento acelerou bastante o ritmo do meu sistema respiratório. Precisei me recompor aplicando minhas técnicas de relaxamento para resgatar a serenidade e dado o avançado da hora, optei por adiar o compromisso.

Mas, antes de sair do shopping, resolvi passar pela praça de alimentação e fazer um lanche, enquanto utilizava a rede para navegar na internet pelo notebook. Aguardava a vinda da minha guloseima favorita, absorta na minha tela quando chegou um grupo de jovens barulhentos que se distribuíram em mesas ali próximo. E entre eles, estavam, para meu espanto, os três personagens do elevador. O episódio começou a me interessar. Discutiam sobre a perda de algum prêmio ou benefício em alto valor financeiro por negligência ou culpa de alguns membros daquela ruidosa equipe. Um dos réus na berlinda era justamente a vítima do caso insólito de minutos antes. O líder da equipe esticava a mão, enquanto rugia as falhas do acusado, e acertava um “tabefe afetuoso” na cabeça do rapaz com os cumprimentos dos demais. Alguns outros deixavam uma “lembrança de protesto” com riscos de canetas ou arremesso de batatas fritas nas roupas e nos brios do infeliz. Os mais afoitos assobiavam uma rajada de indelicadezas. Parece que o culpado estava sendo executado, recebendo as penas pelo julgamento e condenação do inflamado grupo.

Acompanhando, de soslaio, as excentricidades da reunião, lembrei de uma fábula antiga descrevendo uma assembléia na marcenaria:
- Conta-se que certa vez, numa marcenaria, uma estranha assembléia foi convocada por um grupo de ferramentas com o objetivo de acertar suas diferenças.

Um martelo assumiu o posto da presidência, mas os participantes lhe exigiram a imediata renúncia. A razão? Produzia desmedido barulho, e depois de tudo, se utilizava de todo o tempo disponível para golpear. O martelo declarou-se culpado, mas impôs que também fosse expulso o parafuso, alegando que tal companheiro dava muitas voltas para conseguir algo. Diante da denúncia, o parafuso reconheceu a falta, mas por sua vez, ordenou a expulsão da lixa. Atacou o maltrato impingido pelas folhas abrasivas arrancando farpas dos outros, ou seja, muita aspereza no tratamento com os demais, resultando em atritos constantes. A lixa anuiu, com a condição da expulsão do metro que sempre media os outros segundo a sua medida, considerando-se isento de falhas.

Nesse instante, irrompeu o marceneiro pela sala à procura das luvas de proteção. Colecionou todo o material de trabalho e iniciou pacientemente a sua tarefa. Serviu-se, com esmero, de todos os apetrechos da oficina. Utilizou, por vezes, o martelo, a lixa, o metro e o parafuso. Em curto tempo, a tosca madeira tomou formas magníficas e se transformou numa refinada peça de mobília.

À noite, quando a marcenaria se recolhia para o descanso, uivando alguns receios e reticências, a assembléia restabeleceu a discussão. Reabrindo a sessão, o serrote tomou a palavra e declarou: “Senhores, ficou demonstrado que todos temos defeitos, mas o marceneiro trabalha com nossas qualidades, com nossos ângulos mais valiosos. Assim, não levantemos nossos aspectos negativos e concentremo-nos somente nos pontos positivos”.

A assembléia admitiu, por fim, que o martelo possuía grande força, o parafuso unia e fixava superfícies, a lixa tinha a especial propriedade de limar e afinar imperfeições, e o metro se mostrava preciso e exato, sempre. Redescobriram, então, o valor de uma equipe capaz de produzir móveis e objetos de qualidade, de expressar a arte na madeira e obter resultados gratificantes. Experimentaram, finalmente, o prazer e a euforia pela oportunidade de trabalharem juntos.

Acontece o mesmo com os seres humanos. Basta examinar as questões de relacionamentos e comparar: quando se busca defeitos em alguém, a convivência torna-se tensa, improfícua e negativa, e no sentido oposto, quando se busca com sinceridade os pontos positivos nos outros, vicejam os melhores triunfos humanos.

Notar e anotar defeitos é extremamente fácil, qualquer pessoa pode fazê-lo. Porém, descobrir qualidades... é próprio dos sábios! Catar predicados ou atributos nos outros é estratégia eficaz para um rico e saudável trato diário, íntimo e mútuo, assim entendo eu.

Seguindo um impulso irrefletido, escrevi a fábula num guardanapo de papel e deixei o “souvenir” com o garçom para ser entregue, sem identificação do remetente, ao exaltado representante do sinistro agrupamento, tão logo eu tivesse me afastado do recinto. Saí bem depressa dali, remoendo a sensação de ter me excedido na intromissão e o pior, seguramente em vão. A idéia era, simplesmente, deixar um sutil lembrete de que a atitude abusiva do grupo tribalista estava sendo testemunhada. Ao dar vazão ao sentimento de indignação quando assisti a manipulação dos mais fracos por forças opressoras me expus a riscos sem medida. Afinal, argumentava comigo mesma, não se pode consertar o mundo. Mas agora estava feito, segui em frente e, levantando a cabeça para o alto, deixei os pingos de chuva do estacionamento pernoitarem no meu rosto e lavarem a minha inquietação.

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CRÔNICA 21
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terça-feira, 25 de novembro de 2008

PERCA UM LIVRO DO MODO CERTO

“Perca um livro!” Essa é uma campanha já existente aqui no Brasil a pleno vapor. Trata-se de uma prática divertida de perder propositalmente um livro em um lugar público para que um terceiro desconhecido o encontre, leia seu conteúdo e o “perca” outra vez, reiniciando, assim, o ciclo. Chama-se BookCrossing e vem da ideia de promover o intercâmbio de livros partindo dos quatro cantos do globo terrestre para transformar o Planeta em uma grande biblioteca. Nos Estados Unidos e na Europa essa técnica de incentivo à leitura, foi rapidamente absorvida e disseminada com êxito pela população, criando uma grande rede de comunicação entre os amantes dessa arte.

Castro Alves - nosso ardoroso poeta baiano – ilustra o conceito, magistralmente:

“O LIVRO E A AMÉRICA”
Por isso na impaciência
Desta sede de saber,
Como as aves do deserto
As almas buscam beber...
Oh! Bendito o que semeia
Livros... livros à mão cheia
E manda o povo pensar!
O livro caindo n’alma
É gérmen que faz a palma
É chuva que faz o mar.


Desde miúda, tenho compulsão por leitura. Minha mente enxerga o livro como um terreno com terras sagradas. Ele me habita enquanto devoro seus mistérios. Sou feita de palavras pintadas, então assumo que sou voraz além da medida, quando um livro me estremece e me empresta luz para novas sendas. Sou ciente que se trata de um gosto muito particular, talvez quase em desuso, e  quem sabe a figura do leitor seja um espécime fadado à extinção no Planeta. Mas a minha língua não cala e apregoa o meu vício pelos corredores da vida, enquanto passa o vento do desejo por entre os dedos da mão que segura com avidez o próximo capítulo.   


Então, imbuída do espírito dessa campanha, tomei a iniciativa de decolar essa prática por minha conta e risco, considerando que inexiste, na minha cidade, um sistema planejado de controle do BookCcrossing, a exemplo de Brasília e outras capitais. Ansiosa para iniciar o processo, segui à risca os procedimentos preliminares exigidos no site gerenciador dos "livros perdidos" http://www.livr.us. Selecionei, do meu acervo, algumas preciosas obras de vários Titãs da nossa literatura, a título de doação, e programei a aventura da distribuição no caminho do meu trajeto diário para o trabalho. E lá se ia eu, numa manhã, ultrapassando os muros dos temores, garimpando um porto aberto para ancorar o livro. O primeiro ponto previsto seria uma praça onde velhinhos aposentados costumavam se reunir diariamente no final do dia. 

Estacionei um pouco mais longe e atravessei a imensa praça deserta até um dos bancos à sombra, sob uma árvore Flamboyant e comecei a “perda” com o meu livro preferido. Na pressa, deixei de considerar as condições de segurança para o livro ser “descoberto” e encontrado. Quase chegando no carro, me ocorreu que pudesse chover e danificar tão importante volume. Resolvi voltar e resgatar o livro para local mais seguro. Dei alguns passos de volta e parei... estarrecida: a última folha inteira do livro se encontrava entre as presas de um cachorro grande com ares de “dono do pedaço”. A praça estava alagada de papel picado e o meu semblante derramando desolação. Acredito que aquela máquina de triturar papel sentiu o cheiro da minha indignação, pois, por um instante, levantou o focinho e me encarou com olhar inquiridor, testa franzida, baba escorrendo mandíbula abaixo... certamente indagando qual o meu interesse naquela festa particular (leia-se barbárie). 

Sofro de uma incorrigível afeição por cães, sem distinção de raça ou origem, mas, naquele momento, não me consta nenhum registro de simpatia pelo sabotador de campanhas humanitárias. Ainda assim, um misto de censura e complacência por aquele arteiro predador me falou ao pé do ouvido que ali não era o meu mar para deixar as iscas. Teria eu que navegar em outras águas.

De toda experiência (boa, má ou nem tanto) eu me cobro extrair um aprendizado. E naquele dia eu aprendi – aliás, aquele enorme farejador de papel escrito me ensinou – a fórmula indicada para “PERDER O LIVRO DO MODO CERTO”.
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CRÔNICA 4