Um poeta americano de nome Ralph
Waldo Emerson, disse apropriadamente: “Quem você é, fala tão alto, que não
consigo ouvir o que você está dizendo”.
Era quase noite naquela agitação
típica de ambiente de shopping, com direito a todo tipo de burburinho gerado
pelas promoções da estação. Muita gente, muitas compras, nenhuma vaga. Na fila do
caixa do Café mais frequentado, aguardava inquieta, com a pressa ditada pelos
ponteiros do meu relógio atolado de compromissos. Justo naquele horário, meio
mundo combinou um ajuntamento na mesma Cafeteria. E a afluência de interessados
alongava a procissão que avançava a palmos. Todos falavam ao mesmo tempo entre
si ou ao celular, atropelando-se com sacolas de desculpas. Invocar toda santa
paciência me parecia razoável. A qualquer instante, a fila haveria de andar. Próximo
ao balcão, enquanto o adolescente conferia o dinheiro para o pagamento do
lanche, o pai exibia com uma piscadela, as habilidades em subtrair e devorar
sorrateiramente um elaborado petisco da cesta ao lado. Travessura de pronto festejada
no cúmplice cumprimento espalmando as mãos. Só que
pouco mais atrás, o moleque de cabelo em corte militar, agarrado à saia da distraída
mãe, presenciou a cena com as orelhas em antena do tipo parabólica captando
sinais. E no momento seguido, aquele garoto de viva expressão, passou de
expectador a protagonista de outra história. Tal qual um ator em franco ensaio
para estreia, se esgueirou entre os adultos até à bandeja de salgados, e invisível
sob as vistas de uma multidão, apanhou todas as guloseimas ao alcance da mão.
Com a voracidade de uma draga, escondeu todos os troféus no bolso do casaco
esportivo. Incontido, cerrou os punhos num gesto de vitória, comemorando a
proeza aprendida mais rápido que o cair de uma estrela.
Imagino que cada atitude, palavra ou
gesto nosso está sendo escaneado e costurado com todos os fragmentos no campo
de observação dos que nos cercam, em todo lugar. E fatalmente tal testemunho abrirá
ressonância na estrada dos que interagiram com os nossos atos, muitas vezes ao
ponto de virar a chave do trilho para direções promissoras ou tortuosas,
dependendo das inspirações recebidas de nós.
Mas muitos são os que permanecem
aferrolhados ao reiterado hábito de mentir um bocadinho com meias verdades, de
induzir terceiros a confirmar inverdades, de sugerir procedimentos pouco éticos,
sem se dar conta de que o vil proceder retira a autoridade moral de exigir ou
esperar qualquer conduta digna ou leal de alguém.
Assim como tantos outros se valem do
cargo investido para imprimir pelo temor reverencial, seus feitos
questionáveis, infamados pela total ausência de princípios ou escrúpulos.
Não percebem que o falso moralismo
petrifica o merecimento do respeito, condição maior de todas para o acatamento
pessoal. Apregoam soluções para os males deste mundo e carregam na boca palavras cintilantes, mas
na penumbra, se comprazem em libertinagens. Diante do espelho, o olhar foge à censura
pelas manobras escuras para parecer sem ser. Parecer ser bom sem ser realmente do
bem. No dúbio viver, com um pé nas aparências e outro no charco, quando a própria
alma não lhe reconhece o corpo, arremessam para longe a grandeza da integridade
humana, intoxicam a formação de todos os que participam do mesmo convívio e
contribuem para consolidar uma sociedade moralmente enferma.
Na moldura do quadro, a reveladora luz
da verdade levanta a capa do retrato e prova que não é a posição que enaltece
quem ocupa o posto, mas sim o comportamento moral com que a pessoa se conduz
dentro dela. Somente as qualidades morais facultam a autonomia almejada, a
deferência interior e silenciosa, fluída das profundezas da alma sem temor.
Essa sonhada autoridade moral se
torna sólida no exemplo atestado pelos nossos atos. A verdadeira autoridade,
aquela que envolve e convence pela própria postura, pisa macio nos arredores do
peito e arrasta o coração de olhos fechados. Traz consigo um pedaço de céu
limpo onde guardar a cabeça. É parte de quem tem domínio sobre si mesmo,
controle por dentro da pele sobre as más inclinações para viver sob as normas
do bom proceder.
De nada serve a atitude professoral vertida
do alto de uma cátedra, se desacompanhada do exemplo, sem a prática do que
prega. Não me refiro necessariamente à conquista das excelsas virtudes ou da
excelência moral, mas sim à tentativa constante de acertar, ainda que
tropegamente.
A responsabilidade pessoal sobre a
direção para onde nossos passos levam outros pés, é patrimônio intransferível. A
convivência com os que exercem alguma autoridade hierárquica baliza a tendência
natural do discípulo a imitar, a fazer igual. E assim como a comunhão
com os bons cimenta os valores morais na mente aberta de quem está perto, a
esteira do mau exemplo amalgama o erro e o vício na jornada de vontades mais
frágeis.
Se quisermos existir para sempre,
para além das histórias, o exemplo é a senha mais curta para a imortalidade. O
mais contundente método de educação, o melhor exercício de caridade, a mais
gratificante de todas as tarefas de casa. Ser amostra viva de lições de vida,
de mensagens úteis para serem lidas e repetidas pelos que transitam ao nosso
redor.
Quem sabe assim, seja gradualmente
extinta a fase em que o homem – criatura mortal e imperfeita – escancara sem
pudor, total desprezo ao nobre, ao certo, ao justo.
Quem sabe seja possível, a vinda de
um tempo em que uma nova consciência venha germinar novos conceitos a despertar
nos espíritos o caminho de um futuro mais são. Quando o respeito mútuo argole,
por extensão, o respeito à vida, à família, às diferenças. Quando a humanização
da humanidade escale os cumes da evolução e se faça latente em tudo que represente
a razão da existência.















