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sábado, 23 de junho de 2012

PORTO SEGURO

No meio do jardim, o movimento das ixoras denunciava algo se mexendo rente ao chão naquele vibrante fim de tarde. O sol já se apressara em sair à francesa, por escancarado pacto com um bloco de nuvens a jorrar aquela deliciosa aragem carregada de frescor que sempre antecede um dilúvio. Segurando uma caneca de café adoçado com mel de cana, eu observava o bailado das folhas secas sem rumo, ao capricho do vento ciciando seu clássico canto de chuva. Destitui-me de palavras para que o sussurro das árvores visitasse o meu pensamento. Era mais que oportuno entrar naquela dobra do dia com flagrante vida pulsando no meu quintal derramado de éricas, begonhas e ramas. O ruído das aves se acomodando no aconchego do bando, o aroma de ervas amassadas banhando o ar de cheiro cítrico, as cores pinceladas no céu com nova paleta em tom escarlate, a dança sinuosa das palmeiras no bafejo das rajadas, tudo, àquela glamourosa hora da Ave-Maria, parecia ecoar uma prece em reverência ao Criador de todas as coisas.

E mais uma vez as rubras ixoras se sacudiram no canteiro. Fiquei acompanhando a ondulação das folhas, à espreita da descoberta. De repente, a pequena cabeça desconfiada de um calango emerge da rasteira folhagem e rastreia o perímetro, checando a segurança. Fiquei imóvel para não interferir nas intenções do pequenino réptil. E num lampejo, uma lapada certeira sorve a joaninha desavisada no pátio, frente às plantinhas. Desaparece sem mover mais uma palha. Segundos depois, retorna ao palco do crime, ciscando atrás de comida. Fareja como um cão de caça. Avança mordiscando qualquer inseto ou fragmento que se mova, prende a vítima entre as mandíbulas, e transporta a presa capturada para algum lugar oculto ao pé das densas florinhas.

Com a pressa rés à casca das patas, o brejeiro personagem perdeu o acanhamento e já não se importava com a minha presença. Certamente pelas idas e vindas com passe livre, se achasse dono do terreno, me tolerando como uma invasora supostamente inofensiva no seu território. Tamanha obstinação em arrebanhar comida para estocar sob as mudinhas floridas não fazia muito sentido, já que a carga arrecadada era maior que o molde do seu minúsculo ventre. Fiquei à espera, com a curiosidade à flor dos olhos, enquanto frutinhos e sementes rodopiavam nos meus pés.

A temperatura desce alguns graus num ritual preliminar de agradar nossa pele antes da chuva forte. Toda a paisagem, da terra até o céu, adquire uma nostálgica coloração sépia, nos moldes das fotos antigas. Começava a troca de turno entre o dia e a noite e a guarda dos anjos noturnos iniciava a ronda, soprando o orvalho sobre a Terra. Segurava a respiração para assistir ao que viria do esconderijo naquela moita, mas um longo intervalo de alguns minutos quase me fez desistir.

Esvaziei a caneca, de olho na formação dos flocos de chumbo nas alturas e que lá do céu me apontavam com relâmpagos a ordem para entrar em casa sem demora. Antes de dar o primeiro impulso para sair de cena, cristalizei o passo com o que começou a surgir à minha frente. De dentro da passagem do túnel secreto saiu o herói dessa história com uma marcha diferente, dessa vez, capitaneando uma fileira de calanguinhos empanturrados. O comboio atravessou ligeiro toda a calçada, direto para o jardim oposto do outro lado do muro, entrando, um por um, numa cavidade entre os seixos debaixo do vaso de eugênias. Seguramente um abrigo acastelado contra as pancadas da iminente tempestade.

Talvez pelo cenário bucólico daquele belo entardecer, meu pensar descreveu uma romanesca associação daquele bichinho instintivo no seu mundo animal com a formação do agrupamento familiar entre as humanas criaturas. Provedor, protetor, condutor, pronto para garantir a sobrevivência e a segurança de suas crias, o pequeno lagarto armava suas estratégias com as informações que a Divindade Superior inoculou em seus genes, cumprindo ao pé da letra o que a programação divina lhe incumbiu.

Na visceral linguagem dos movimentos daquele animalzinho, cercando sua prole de cuidados, percebi alguns princípios presentes também na convivência em família do bicho-homem. Lá dos subterrâneos da memória, me veio o registro de que a família, desde sempre, representa o laurel maior de um ser humano. Sua maior conquista. Sua melhor referência. Seu mais alto pendor.

Na família se aninha o amor desinteressado e espontâneo que abastece cada um com o lenitivo capaz de domar tormentas. Nesse reduto afetivo, onde o dividir ensina com quantos ossos se faz um coração, os membros entram descalços dentro do abraço e compartilham um mesmo contexto. Aprendem a se definir como diferentes, a esquinarem-se com um sorriso, desses que criam nos outros uma razão para inventar a felicidade. Em tempos difíceis ou ditosos encarceram lá no escaninho das emoções, um sentimento agregador, quando os exemplos e as experiências de todos fortalece o tronco salutar desse amor a toda prova. Aprimoram-se os relacionamentos, ainda que a duros entreveros, ainda que larvas infectas tenham comido os gestos, mastigado o sangue e desbotado o olhar.

Penso que existe uma chama votiva em algum lugar em nós por dentro da pele pronta a alumiar o que de melhor há em nós para a família. Pronta a aflorar os melhores predicados, a exercitar a paciência, a gentileza, o agrado sincero. São os nossos que merecem o primeiro sorriso da manhã, o abraço mais apertado, a atenção incondicional, a torcida de punho fechado, a oração mais contrita. A magia dessa troca agiganta as forças contra o mundo lá fora, ainda que o mundo seja esse lugar pequeno, onde a temperança não cabe. Por fora, o planeta pode desabar, o caos se instaurar, mas no seio do lar, o universo cresce, a confiança garante, o afeto tem a força do laser contra o impossível. Tudo é de repente simples, como tampar no pulmão campos florados inteiros, pestanejar nesgas de sol, florir pedras roladas, ou guardar estrelas entre a ramagem. É no calor das mãos dadas que crescem as estações abundantes de futuro, com a acolhedora sensação de se sentir no mesmo oco, em suspiros antecipados por um ou dois arrulhos inventando um céu mais baixo, partilhando e crescendo juntos, como os calanguinhos embaixo do vaso, antes da grande chuva. Porque os dias mais belos são esses, em que construímos sonhos e nos sentimos para sempre.

Família é isso. É o porto seguro. Sem ela é como estar num mar, à deriva, sem bússola, sem farol, sem horizonte. Ou num mato, sem mapa, sem trilhas, sem cão, sem norte. Como um nômade errante por dentro da noite, que sem perceber que são negras suas estrelas, deixa o coração vazio e sem memórias encurtar ao tamanho de uma polegada de dor, até fenecer no anonimato.

Preciso correr depressa, o primeiro trovão arremessa seu jato de fogo num raio muito perto. Grossos pingos d’água começam a cair com o peso de meteoros sobre a minha cabeça e acabo de lembrar que toda a minha vida guardei no peito o mar, o por do sol, os dias calmos ou intensos, a chuva, as árvores, as margaridas, os meus entes queridos, os meus filhos que são a minha família frutificando a sete camadas de afeição. Um dia vão saber que vivi com um pé na primavera e morri de sol, de luar, de paz, de riso, de potes de afetos, de luz, de família.

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CRÔNICA 56

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sexta-feira, 16 de janeiro de 2009

HUMANOS DE ESTIMAÇÃO


Há algumas semanas circulou nos noticiários a façanha de um cão arriscando sua vida para tentar salvar o parceiro que tinha sido vítima de atropelamento numa rodovia de intenso tráfego no Chile. Refiro-me, com ênfase, ao vídeo do cão herói publicado no Youtube, pela singularidade da impressionante cena.

Aquele caso redirecionou minha atenção para esses animais tão especiais - os cães - pelos quais sinto indisfarçável ternura, independentemente de raça... definida ou indefinida ou de raça nenhuma.

Convivo com a ideia de que para sermos completos, como pessoas, precisamos desenvolver a capacidade de exercitar o amor e o respeito por tudo o que nos cerca, nisso incluídos a Natureza e os animais. Amar e ter compaixão pelos seres vivos são atitudes capazes de transformar a nossa vida e o mundo inteiro, e ainda enseja a descoberta da porção divina em cada ser humano.

São Francisco de Assis pregava: “não te envergonhes se, às vezes, os animais estiverem mais próximos de ti do que as pessoas”.

No mundo globalizado de hoje, invadido por relacionamentos virtuais, os amiguinhos de rabo ganham espaço pela proximidade do afago ao alcance da mão. Falo, principalmente, dos cães com os quais compartilhamos períodos da nossa existência e dos quais recebemos carinho, companhia e muita diversão. Eles se dedicam aos seus humanos com devoção, felizes simplesmente por seus donos existirem e ali estarem.

Os sentimentos de um cão são, ironicamente, uma das coisas mais humanas, doces e inspiradoras que pude aprender há pouco tempo atrás.

Por breves treze anos, adotamos um cachorrinho, chamado Dollar. De pelo longo na cor do caramelo, nariz de bolinha esponjosa, olhos vivazes lembrando as frutinhas do açaí, faceiro e independente. Ele não se considerava um cão, entendia ser um de nós, parte da família, ou talvez o contrário, que éramos a sua matilha, os seus familiares "diferentes", os seus “humanos de estimação”. Jamais tentamos treiná-lo, até porque isso seria inviável, considerando a sua forte personalidade, com vontade própria sobre todos. Todas as ordens poderiam ser descumpridas, se assim lhe aprouvesse. E o seu minúsculo tamanho não era empecilho para nos defender, com valentia, de provável ameaça. Somente o trovão e os fogos de artifício imprimiam-lhe alguns limites.

Ao lado de tudo isso estampava, sob todas as formas, a fidelidade e o amor incondicional. Amor escancarado na alegria, na empatia conosco, no companheirismo a toda hora, na proteção velada ou ostensiva, no apoio silencioso trazido pela aproximação sem ruído. Com ligeira inclinação do focinho, orelha ereta e olhos atentos investigava o que se passava com cada um de nós, e aí vinha, incontinenti, a solidariedade ou a cumplicidade, manifestadas com afagos gentis de leves arranhões das patinhas sobre os nossos pés no esforço para participar dos momentos de todos nós.

Em qualquer situação, ele entendia as minhas palavras, os meus comandos mudos, o meu silêncio, a minha ausência. Percebia qualquer alteração no meu semblante e esquecia-se de si próprio para me acompanhar, pela casa, 24 horas, visivelmente envolvido com o meu estar-bem, sem nada pedir, sem nada esperar... Sabia, como ninguém, se expressar com o olhar, com os suspiros, com o sorriso, com os balbucios da linguagem canina variando as entonações, conforme a emoção do momento. Transformava todo o seu corpinho em um potente radar para captar nossas reações e assim nos trazer o presente apropriado para a ocasião, como um rabo abanando em círculos, uma lambida mais longa, uma corrida elaborada ou um salto no colo sem licença prévia. A simples visão daqueles olhinhos súplices, ricos de significados, dissolvia minhas agruras, aflorava meu alto astral, trazia de volta o encaixe no meu eixo.

Costumávamos compará-lo a um lorde, tal a elegância da performance conosco... desde que não surgisse um gato por perto a despertar o genuíno e nativo espírito do combatente de felinos disposto às vias de fato num eventual confronto com a caça. A energia vigorosa, o sorriso contagiante recolheram-se, unicamente, quando o coraçãozinho cansado avisou do risco fatal iminente e que havia chegado o instante amargo da temível e inevitável separação. Que precisávamos nos despedir para a sua viagem sem volta, porque a eternidade fixou um tempo bem curtinho para os momentos dele com a gente. Inconformados, nós o cobrimos com um manto de amor e gratidão... para sempre. Ainda não cicatrizou, a saudade insiste em ser presente e muito me doeu escrever este texto até o fim.

Diz a cultura popular que quando se vai embora de um lugar, deixa-se um pouco de si nele e leva-se consigo algo dele. O Dollar me deixou o lembrete de que a vida é efêmera, me deixou um alerta de que precisamos viver o presente, o agora, com todas as forças. Ensinou-me que o querer bem, por si só, é suficiente e satisfaz, porque onde sobra o amor, falta espaço para a dor. Conseguiu me demonstrar que a confiança é a base da pura e irrestrita amizade. E, finalmente, me fez viajar de mala e cuia para dentro da vida e me apontou a certeza de que tudo valeu à pena.

Pela experiência vivida com essa criaturinha extraordinária, é que aqui deixo o registro de que os animais são seres sencientes e, por isso mesmo, sensíveis ao sofrimento, e suas necessidades de bem-estar devem ser custodiadas. Ficou em mim, pelo lado de dentro do bolso esquerdo do corpo, o legado do Dollar, sobre a posse responsável, revestida dos cuidados e deveres para com os nossos bichinhos cativos, na saúde e na doença, na alegria e na tristeza, na juventude e na velhice, na abundância ou na escassez, na vida até à morte.

Tenho em mente que cuidar do meio ambiente, dos organismos vivos e de nós mesmos é a nossa herança como inteligência racional, pois somos os responsáveis “conscientes” pela ordem e progresso da humanidade. E só assim, justificamos o merecimento de habitarmos este Planeta, onde cada partícula de matéria, cada molécula, cada sopro de vida, têm gravadas as impressões digitais do Criador.
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CRÔNICA 10