Dias atrás, por ser quase férias, improvisei um coração novo para caber os lugares que arrasto comigo nas viagens. Fazia algum tempo que eu não pisava em solo americano, atemorizada com o onze de setembro. Animada para uma maratona particular pelos brinquedos mais radicais da Disney, andei pela terra do Tio Sam, cruzando os limites da Flórida, de ponta a ponta.
Longe de criticar ou exaltar os Estados Unidos em comparativos com o nosso Brasil, penso que tanto a cultura brasileira quanto a americana, ambas resultantes de um mosaico com diferentes vertentes culturais, têm seus pontos fortes e outros a ajustar. Porém, o meu querido País emergente que me perdoe, mas, consoante o velho dizer de Vinícius, beleza é fundamental. A beleza da evolução de uma nação e sua gente para uma pátria cantar suas vitórias. São gritantes as diferenças entre esses dois Países em quesitos comuns como segurança pública, educação, economia e outras e outras. Por tudo o que vi, existe um abismo entre o viver deles e o nosso.
Aqui não estou me referindo à tecnologia da construção, por exemplo, que ergue e apronta uma edificação naqueles canteiros de obra, do dia para a noite. Também não falo do sistema viário avançado, nem da pavimentação impecável das estradas, ruas e avenidas. Nem menciono na conversa, o arrojo na arquitetura do plano diretor das cidades servidas por emaranhados de viadutos e estações de metrô com impressionante funcionalidade. Deixo de lado, ainda, o esplendor ostentado pelo império econômico nos luxuosos e imponentes arranha-céus espelhados em Downtown, Miami. Aos ventos que sopram o glamour da riqueza e poder, já não escrevo odes.
Refiro-me à consciência social, à civilidade, à organização, à disciplina, à qualidade de vida, ao respeito para com os bens públicos e para com o semelhante, numa terra onde a polícia cumpre seu papel, a ordem e limpeza pública são seguidas à risca pelos cidadãos e entidades. Marcante, é assistir, por vezes incontáveis, à dedicação de pessoas que, de tão obesas, perderam a forma humana, mas se desdobram na atenção aos seus genitores ou outros familiares deficientes em cadeiras de rodas, dispostos a lhes oferecer, ainda que a custo de redobrado esforço pessoal, o possível em diversão ou conforto. Admirável, é ver o idoso que, enquanto assim desejar, trabalha com garra, derrama sorriso fácil em todas as faces da pele e tem o seu espaço garantido entre os vivos para fruir com dignidade de seu quase outono. Por essas e outras que presenciei em escala razoável, sei bem que o Brasil, este amado torrão imenso e intenso, pejado de carências sociais e mazelas políticas, daqui a trezentos anos talvez, comece a formar a consciência de um novo tempo, na trilha do primeiro mundo.
Durante o percurso da viagem, por vezes, os fatos correram à revelia do nosso querer e gravaram forte impressão em memórias que fecundam lágrima no meu olho. Uma das experiências, aparentemente trivial, tem um marcador inusitado, por beirar o impossível.
Determinado dia, chegamos cedo a um dos parques temáticos gigantes de Orlando, apinhado de gente, na casa dos milhares e milhares. Fomos buscar aventura nas mirabolantes elevações de aço com trilhos nas alturas para deslizamos naqueles sedutores aclives sucessivos. O auge do desafio está nas descidas verticais bruscas, quando despencamos na incerteza de chegar inteiro em lugar ignorado, fora do campo de visão. Nessas quedas vertiginosas, é que rezamos para sair vivos, enquanto os loopings desarrumam os nossos órgãos internos e colocam o nosso labirinto em marcha a ré. Mas, como todo hobby viciante, quando pomos o pé no chão, ansiamos voltar para onde mora o perigo e tudo recomeça.
No meio do dia, depois de desembarcarmos dos vagonetes, encharcados com os giros extravagantes de uma montanha-russa aquática, pingando adrenalina e sem fôlego, nos acomodamos num Fast Food para almoçar. Meu filho procurou a carteira no bolso e nada encontrou. Rebuscamos todos os possíveis esconderijos nas mochilas, percorremos o caminho de volta até as atrações já frequentadas e nada, nem esperança. Entrei em choque, porque naquela carteira estavam todos os nossos ingressos dos parques e shows, cartões de crédito e dólares suficientes para balançar as convicções ou corromper a boa-fé de qualquer mortal. Todas as portas das nossas férias estavam abertas ao usufruto do felizardo achador entre a multidão que circulava naquele dia. Devolver para quê? Ali estava uma programação completa de entretenimento, com todos os suportes financeiros agregados de brinde. Todas as peças naquele contexto me indicavam o mapa de uma causa perdida. Fazia horas do sumiço e a cada instante passado, o retorno do bem, a reversão da perda, parecia impraticável.
Cristalizei, literalmente, com um torpor a me mastigar os gestos. Minha mente esquentava os tambores trabalhando numa solução, enquanto minha postura inerte ignorava o movimento em volta, tal como quando o corpo chama o coração e ele não responde. Nisso, meu filho, provido de uma calma extraordinária, assim afirmou com uma certeza inabalável: “Mãe, fica aqui e me espera, porque eu vou encontrar minha carteira e voltar com ela”. Nem precisava recomendar, porque dentro de mim, uma granada de silêncio ancorava meus pés e me travava o andar, nos moldes de uma estátua de jardim, imóvel e muda. Saiu concentrado, e em oração, pediu para que Deus colocasse seus anjos no circuito e lhe apontassem o caminho.
Dirigiu-se a ermo, com o horizonte no olhar, a um dos seguranças do parque e em bom inglês fez o registro da perda. O guarda anotou a ocorrência, fez contatos por rádio com outros parceiros e nenhuma resposta. Solícito, o prestimoso vigilante avisou que ia se afastar para investigar no escritório entre os objetos perdidos e retornou alguns minutos depois sem nada nas mãos, visivelmente pesaroso. Comentou tratar-se de uma empreitada difícil, considerando o tamanho da área a esquadrinhar e o aglomerado de visitantes vindos das cercanias. Então, engasgado pelas frases curtas, chamou a gerência representando a autoridade do lugar para selar o atendimento. Estranhamente, as cenas se sucederam, como num passe de mágica, desses que saem da cartola divina do Altíssimo no Céu. O gerente veio caminhando de outra direção, e perplexo, entregou nas mãos do Ulysses a carteira intacta, com todos os itens rigorosamente intocados, sem nada mexido ou violado, dizendo: “Você tem muita sorte, sua carteira acabou de me ser entregue por uma pessoa que a encontrou no chão, distante daqui”.
Agradeci, incontinenti, a Deus por tanto naquele momento. Foi comovente pensar na mentalidade evoluída do transeunte que resgatou a carteira e confiou na hombridade de um simples cidadão americano - o gerente daquele setor de montanha-russa. De volta, ao longe, em marcha tranquila, o Ulysses mostra, num aceno, o troféu recuperado. Ao chegar perto, como se nada tivesse acontecido, perguntou com a maior normalidade: “Vamos almoçar?” Reação típica do jovem que ajusta as velas na tempestade e ao chegar em águas mansas, só lembra de pingos d’água. E assim prosseguiu, sem mais tocar no assunto, feliz da vida na nossa volta aos parques por horas esquecidas.
Difícil de acreditar, mas naquele dia, eu presenciei um milagre incontestável em todas as suas nuances. Uma prece atendida em regime de urgência contrariando todas as previsões no mundo material, deixou expressa uma intervenção sobrenatural entre nós, guiada por determinação divina para nos socorrer. Sob a minha ótica, não se trata de coincidência ou casualidade, e sim, fenômeno que escapa à nossa compreensão, inexplicável dentro dos conceitos do Plano Físico e só esclarecido na palavra do Sublime Mestre: "Pedi e recebereis".












