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quarta-feira, 25 de maio de 2011

NA TERRA DO TIO SAM

Dias atrás, por ser quase férias, improvisei um coração novo para caber os lugares que arrasto comigo nas viagens. Fazia algum tempo que eu não pisava em solo americano, atemorizada com o onze de setembro. Animada para uma maratona particular pelos brinquedos mais radicais da Disney, andei pela terra do Tio Sam, cruzando os limites da Flórida, de ponta a ponta.

Longe de criticar ou exaltar os Estados Unidos em comparativos com o nosso Brasil, penso que tanto a cultura brasileira quanto a americana, ambas resultantes de um mosaico com diferentes vertentes culturais, têm seus pontos fortes e outros a ajustar. Porém, o meu querido País emergente que me perdoe, mas, consoante o velho dizer de Vinícius, beleza é fundamental. A beleza da evolução de uma nação e sua gente para uma pátria cantar suas vitórias. São gritantes as diferenças entre esses dois Países em quesitos comuns como segurança pública, educação, economia e outras e outras. Por tudo o que vi, existe um abismo entre o viver deles e o nosso.

Aqui não estou me referindo à tecnologia da construção, por exemplo, que ergue e apronta uma edificação naqueles canteiros de obra, do dia para a noite. Também não falo do sistema viário avançado, nem da pavimentação impecável das estradas, ruas e avenidas. Nem menciono na conversa, o arrojo na arquitetura do plano diretor das cidades servidas por emaranhados de viadutos e estações de metrô com impressionante funcionalidade. Deixo de lado, ainda, o esplendor ostentado pelo império econômico nos luxuosos e imponentes arranha-céus espelhados em Downtown, Miami. Aos ventos que sopram o glamour da riqueza e poder, já não escrevo odes.

Refiro-me à consciência social, à civilidade, à organização, à disciplina, à qualidade de vida, ao respeito para com os bens públicos e para com o semelhante, numa terra onde a polícia cumpre seu papel, a ordem e limpeza pública são seguidas à risca pelos cidadãos e entidades. Marcante, é assistir, por vezes incontáveis, à dedicação de pessoas que, de tão obesas, perderam a forma humana, mas se desdobram na atenção aos seus genitores ou outros familiares deficientes em cadeiras de rodas, dispostos a lhes oferecer, ainda que a custo de redobrado esforço pessoal, o possível em diversão ou conforto. Admirável, é ver o idoso que, enquanto assim desejar, trabalha com garra, derrama sorriso fácil em todas as faces da pele e tem o seu espaço garantido entre os vivos para fruir com dignidade de seu quase outono. Por essas e outras que presenciei em escala razoável, sei bem que o Brasil, este amado torrão imenso e intenso, pejado de carências sociais e mazelas políticas, daqui a trezentos anos talvez, comece a formar a consciência de um novo tempo, na trilha do primeiro mundo.

Durante o percurso da viagem, por vezes, os fatos correram à revelia do nosso querer e gravaram forte impressão em memórias que fecundam lágrima no meu olho. Uma das experiências, aparentemente trivial, tem um marcador inusitado, por beirar o impossível. 

Determinado dia, chegamos cedo a um dos parques temáticos gigantes de Orlando, apinhado de gente, na casa dos milhares e milhares. Fomos buscar aventura nas mirabolantes elevações de aço com trilhos nas alturas para deslizamos naqueles sedutores aclives sucessivos. O auge do desafio está nas descidas verticais bruscas, quando despencamos na incerteza de chegar inteiro em lugar ignorado, fora do campo de visão. Nessas quedas vertiginosas, é que rezamos para sair vivos, enquanto os loopings desarrumam os nossos órgãos internos e colocam o nosso labirinto em marcha a ré. Mas, como todo hobby viciante, quando pomos o pé no chão, ansiamos voltar para onde mora o perigo e tudo recomeça. 

No meio do dia, depois de desembarcarmos dos vagonetes, encharcados com os giros extravagantes de uma montanha-russa aquática, pingando adrenalina e sem fôlego, nos acomodamos num Fast Food para almoçar. Meu filho procurou a carteira no bolso e nada encontrou. Rebuscamos todos os possíveis esconderijos nas mochilas, percorremos o caminho de volta até as atrações já frequentadas e nada, nem esperança. Entrei em choque, porque naquela carteira estavam todos os nossos ingressos dos parques e shows, cartões de crédito e dólares suficientes para balançar as convicções ou corromper a boa-fé de qualquer mortal. Todas as portas das nossas férias estavam abertas ao usufruto do felizardo achador entre a multidão que circulava naquele dia. Devolver para quê? Ali estava uma programação completa de entretenimento, com todos os suportes financeiros agregados de brinde. Todas as peças naquele contexto me indicavam o mapa de uma causa perdida. Fazia horas do sumiço e a cada instante passado, o retorno do bem, a reversão da perda, parecia impraticável.

Cristalizei, literalmente, com um torpor a me mastigar os gestos. Minha mente esquentava os tambores trabalhando numa solução, enquanto minha postura inerte ignorava o movimento em volta, tal como quando o corpo chama o coração e ele não responde. Nisso, meu filho, provido de uma calma extraordinária, assim afirmou com uma certeza inabalável: “Mãe, fica aqui e me espera, porque eu vou encontrar minha carteira e voltar com ela”. Nem precisava recomendar, porque dentro de mim, uma granada de silêncio ancorava meus pés e me travava o andar, nos moldes de uma estátua de jardim, imóvel e muda. Saiu concentrado, e em oração, pediu para que Deus colocasse seus anjos no circuito e lhe apontassem o caminho.

Dirigiu-se a ermo, com o horizonte no olhar, a um dos seguranças do parque e em bom inglês fez o registro da perda. O guarda anotou a ocorrência, fez contatos por rádio com outros parceiros e nenhuma resposta. Solícito, o prestimoso vigilante avisou que ia se afastar para investigar no escritório entre os objetos perdidos e retornou alguns minutos depois sem nada nas mãos, visivelmente pesaroso. Comentou tratar-se de uma empreitada difícil, considerando o tamanho da área a esquadrinhar e o aglomerado de visitantes vindos das cercanias. Então, engasgado pelas frases curtas, chamou a gerência representando a autoridade do lugar para selar o atendimento. Estranhamente, as cenas se sucederam, como num passe de mágica, desses que saem da cartola divina do Altíssimo no Céu. O gerente veio caminhando de outra direção, e perplexo, entregou nas mãos do Ulysses a carteira intacta, com todos os itens rigorosamente intocados, sem nada mexido ou violado, dizendo: “Você tem muita sorte, sua carteira acabou de me ser entregue por uma pessoa que a encontrou no chão, distante daqui”.

Agradeci, incontinenti, a Deus por tanto naquele momento. Foi comovente pensar na mentalidade evoluída do transeunte que resgatou a carteira e confiou na hombridade de um simples cidadão americano - o gerente daquele setor de montanha-russa. De volta, ao longe, em marcha tranquila, o Ulysses mostra, num aceno, o troféu recuperado. Ao chegar perto, como se nada tivesse acontecido, perguntou com a maior normalidade: “Vamos almoçar?” Reação típica do jovem que ajusta as velas na tempestade e ao chegar em águas mansas, só lembra de pingos d’água. E assim prosseguiu, sem mais tocar no assunto, feliz da vida na nossa volta aos parques por horas esquecidas.

Difícil de acreditar, mas naquele dia, eu presenciei um milagre incontestável em todas as suas nuances. Uma prece atendida em regime de urgência contrariando todas as previsões no mundo material, deixou expressa uma intervenção sobrenatural entre nós, guiada por determinação divina para nos socorrer. Sob a minha ótica, não se trata de coincidência ou casualidade, e sim, fenômeno que escapa à nossa compreensão, inexplicável dentro dos conceitos do Plano Físico e só esclarecido na palavra do Sublime Mestre: "Pedi e recebereis".

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CRÔNICA 46
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domingo, 17 de abril de 2011

UMA FOLHA EM BRANCO


É cedo ainda. A noite acabara de abrir as escuras cortinas com o mais vivo tom gris no espaço. Um pano de fundo quase marinho para as estrelas, em múltiplas cores, posarem cheias de pudor sem o véu da neblina naquele céu limpo. As árvores pintadas de abril albergam os pássaros adotados para adormecerem em seus braços, sob o feitiço da lua. Uma brisa úmida goteja o sereno das ramas e no cair dos pingos cria cantiga de ninar irresistível para os nossos sentidos. Todo o mistério das horas calmas está presente no sossego das sombras. Em tempos assim, a poesia solta no ar um hálito de flor noturna e diz aos nossos olfatos que a ternura se faz urgente. Na leveza do movimento dos vultos à meia-luz, regido pelo vento nas folhas à meia-voz, em noites como esta, me apetece escrever à moda antiga, com a tinta conduzindo a dança das palavras em cada pauta do papel.

Disposta a redigir o conto a ser publicado ainda hoje no Blog, recostei-me numa poltrona de descanso na varanda, armada com a caneta em punho e uma folha em branco. Deixei a imaginação à deriva para pinçar uma inspiração, pois cruzar as fronteiras do âmago requer suscitar aquelas ciências ocultas nos recônditos da mente. O ritual tem início no exercício da respiração profunda. Carece de relaxamento para adentrar na pele, chegar ao coração e colher a emoção que vaza pelos atalhos para abastecer a caneta e assim dar início à escritura. No compasso desse rito, tencionava expressar meu canto até o ponto final. Nas minhas mãos, a alva folha me instigava a brincar de lapidar palavras, a treinar com o cinzel para esculpir um escrito.

Porém, o silêncio dessa hora de intuitiva contemplação induzia minhas pestanas a pegar no sono e, num fechar de olhos, ameaçava sabotar a minha intenção. Um estado alfa se assenhoreando da minha vontade me levava a enxergar a paisagem exterior através de uma estreita fresta entre minhas pálpebras pesadas como chumbo. Por mais que tentasse manter semiabertas as janelas da alma, a lassidão me entregou de sobejo aos domínios de Morfeu.  

Um sonho inusitado e fantasioso me esperava na outra margem, daqueles sonhos que aparecem uma vez na vida. Estava eu diante de um oráculo cercado por tochas acesas. No topo da enorme escultura a inscrição “CONSCIÊNCIA” gravada em letras estilo romano, conferia ao visitante o direito de obter resposta a uma única pergunta. Tudo ao redor me lembrou um oásis plantado num deserto sem areia, com milhões de pedrinhas. De beleza surreal, o projeto concebido por inigualável Arquiteto esmerou-se na decoração do nada com imensas rochas brutas cercadas no chão por infindáveis seixos rolados, daqueles que perdem as arestas pelo giro em torno de seu eixo. Rústico e original, o lugar sugeria um canto inexplorado algures na Terra, se é que na Terra eu estava.

Quase sempre, me dissocio do conteúdo de sonhos e pesadelos e sou meio cética quanto aos seus significados ou superstições que envolvem suas tramas. Mas algo ali parecia diferente e quem sabe, divertido. Então arrisquei uma pergunta que anda pontilhando a cumeeira da minha curiosidade: “Estaria eu cumprindo o meu destino na Terra?” Uma voz mansa e segura adornada pelos efeitos especiais de um eco milenar, assim me respondeu: “Imagine uma moldura e aloje dentro dela um autorretrato atual, sem máscaras, construído pelas suas obras. Se a ilustração final não precisar de retoques, a missão cumpre rumo certo”.

A tarefa me sugeria nível de dificuldade zero, grau de complexidade nenhum. Uma ampulheta ao pé do portal começava a medir meu prazo. Felizmente, trazia comigo os instrumentos de escrita que segurava antes do cochilo. Envolta na mística atmosfera exalada da grande pedra, tomei a folha de papel e iniciei as pinceladas: coloquei todas as minhas crenças, os meus projetos, as minhas realizações, os meus erros e acertos, as mudanças de atitude pela revisão periódica dos conceitos, os meus achados e perdidos nos feitos e omissões, os sentimentos que habitam o meu secreto.

O perfil foi se desenhando, as formas foram se definindo e a efígie foi se revelando. Manejava os traços com certa celeridade, ávida pelo desfecho daquela incógnita. Com o foco nos rabiscos, gastei horas para produzir o esboço dentro da maior fidelidade possível. Em determinado instante, voltei o olhar para o exótico cronômetro à minha frente e observei que o cônico vaso superior já havia transferido quase toda a areia. Supondo ter finalizado o desenho, estirei o braço esquerdo para melhor visão do todo. Percebi que as linhas não completavam os contornos, não se ligavam nas extremidades. Inquieta, fiz uma pausa para capturar algum detalhe esquecido para compor o restante, mas ali estava a minha vida desnuda, por inteiro. A ampulheta sinalizou a fase esgotada, formalizando um roteiro organizado com regras rígidas e impressionante lógica.

Uma sensação de ansiedade balançava a minha estrutura e punha minhas fortalezas em xeque. Rebusquei, num retrospecto insistente, as peças faltantes na montagem, inconformada com tantas lacunas nos meus haveres e descobri que os intervalos na figura gráfica provinham de encargos não cumpridos, ainda não preenchidos no meu cadastro terreno. E diante do meu pasmo, o resultado intrigante deixava à mostra a inesperada resposta: o meu retrato estava incompleto, tracejado, porque as tarefas inconclusas, como humana criatura, deixavam as vagas entre os traços. Caindo das nuvens, compreendi que minha missão carecia de ajustes e consertos, e oxalá eu tenha curso no tempo para a empreitada: muito há para aprender, tudo para ensinar, muito mais para ajudar.

Não sabia ao certo em que mundo estava, em que dimensão havia me enveredado, mas sabia ser temente ao Onipotente Senhor dos Mundos, soberano sobre o meu existir. Sabia ser autora inevitável de longa lista com petições de escusas para com os meus. Sabia ser devedora de atenção para com muitos. Instintivamente, abri a gaveta do peito, e entornei toda a estampa do papel de volta ao meu interior. Deixei a folha nua, vazia de mim, sem vestígios. Do alto da brancura de sua superfície, aquele pedaço de papel me espiava registrando meus propósitos.

Lembro que todos os meus ossos palpitavam o desejo de voltar ao mundo material, torcendo para que tudo aquilo fosse apenas um sonho e assim me fosse aberta outra chance de acordar, completar a imagem e ficar bem na foto do outro lado.


Acordei puxando o fôlego, trêmula do pé à cabeça, e até minha sombra suspeitava dos limites de onde terminava o sonho e começava a realidade. Uma fênix em forma de coruja sobrevoou minha varanda fazendo a entrega de um feixe de alívio. Estava de volta ao meu mundo, em carne, osso e gratidão. Tudo não passou de um sonho, nada mais que um sonho. Mas nas minhas mãos, uma folha em branco me olhava cobrando as promessas.

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CRÔNICA 45

sábado, 4 de setembro de 2010

AGRADECER É ARTE

Tenho, neste instante, um pequeno seixo de rio na mão. Uma simples pedra que, entretanto, erige um totem do meu agradecimento aos céus. Cedo aprendi a agradecer, daquela forma casual, à superfície dos gestos, ao sabor das palavras formais nos ritos religiosos. Mas em diversos momentos da minha vida, fui impelida a encontrar a estrada da gratidão, aquela que nos dirige ao verdadeiro sentido de agradecer por tudo ou por algo recebido, ínfimo que seja. Um desses momentos, por exemplo, deixou registro em meu diário, ao trocar de endereço com minha família pela primeira vez.

Estávamos de mudança para um apartamento na praia, frente ao rio, na busca da ventura de encontrar em residência condominial a segurança e a praticidade exigidas pelos tempos modernos. O coração tinha ido na frente, seduzido pela vista de sol e mar de água doce. Na euforia dos preparativos, fizemos, reunidos, a última refeição na casa onde vivemos por anos. Todos os familiares cuidavam do fechamento de tudo para a entrega da chave ao recente comprador. Cheia de entusiasmo pelo rio a me atravessar as retinas e movida pela afobação, saí às pressas, sem olhar para trás, para tratar de detalhes na nova morada. No caminho, recebi um telefonema do meu marido nos seguintes termos: “Regina, quando saíste, todas as plantas dos vasos e jardins murcharam, encolhendo as folhas a olhos vistos. Abateram-se todas com a mesma reação e ao mesmo tempo, parecem sem vida”. Num estalo, lembrei que receberam rega pela manhã, mas não lhes falei da nossa saída. Com a pressão da partida em regime de urgência, não lhes dirigi qualquer atenção. E sensíveis como são, esses delicados seres vivos interagem com o ambiente, captam e transmitem energia e reagem aos estímulos externos. “Certamente perceberam nosso afastamento e experimentaram a terrível sensação de abandono”, pensei alto.

Nessa hora já me encontrava longe demais para retornar, mas com a omissão à garganta e quase febre nas mãos, caí refém do remorso por ter passado em branco o meu agradecimento ao Senhor Deus pela convivência com todo aquele verde tão acolhedor. Havia saído, à tardinha, com a cabeça no espaço e o azul das nuvens me ofuscara os laços com memórias tão gratas. Um poente inquiridor andando-me às costas, assistia a erupção vulcânica da mea-culpa, desfalecendo minhas forças.

Ensaiei uma retrospectiva dos fatos e me lembrei dos muitos anos com minha família naquela casa, ajuntando no peito histórias felizes, com muitas vitórias para celebrar. Acolhia correntes de ventos soprando nuvens animadas sobre nossos dias. Alimentava os arbustos e as flores com agrados diários quase sempre com o coração em repouso sobre suas folhas. Ao sair pela última vez, com a dispersão atracada às minhas ideias pelo  foco em outras preocupações, deixei, involuntariamente, de me despedir das viçosas plantas; esqueci, distraidamente, as palavras da prece do lado de dentro da boca com tanto para dizer. Então, mesmo distante, como quem inventa um tempo aberto num outro espaço, mentalizei o meu antigo quintal, ancorei os pés na terra entre as roseiras e agradeci ao Pai Celestial, com a força da contrição, pelo oceano que aquela habitação nos deu e que, por mais que me empenhasse, só conseguiria registrar uma gota de agradecimento. De joelhos, agradeci o tempo em que a casa nos abrigou com conforto e bem-estar. Agradeci por tudo o que aprendi em todo o período, vivendo ali. Na oração pedi ao Infinito Bem que tudo naquela vivenda se mantivesse íntegro e funcional e que a nova família a entrar fosse abençoada e protegida com a felicidade pelo usufruto de toda a comodidade. Sei quanto este conto beira os limites do inverossímil, mas a vitalidade com que as plantas se reergueram, no dia seguinte, me falou de paz.

A partir de então, criei vários lembretes de agradecimento na forma de seixos rolados, aqueles fragmentos de rocha retirados do leito do rio, que quando vistos ou tocados, me agregam a lembrança dos muitos motivos que tenho para agradecer. Distribuí vários deles pela bolsa, pelas gavetas, prateleiras e lugares onde as mãos procuram objetos de uso diário. Assim, quando minha mão roça numa dessas pedrinhas ao procurar qualquer miudeza ou quando meus olhos recaem a visão sobre uma delas, é hora de agradecer, é hora de elevar o pensamento ao Criador em louvor e com gratidão.

Para todo o sempre, agradecerei por tudo o que temos e recebemos, e por tudo o que nos é permitido conhecer, ver e fazer. Ainda que este sempre seja tão breve que caiba na palma da minha mão, agradecerei com alegria sentida, dessas que ficam a crescer-nos como heras floridas nos muros do espírito.

E agradecer é arte a ser praticada com devoção: a nossa alma deve misturar-se ao gesto, nossas palavras devem conter o calor da sinceridade e a força da intenção. O resultado precisa imprimir a energia do nosso reconhecimento e a certeza da nossa sintonia com o Bem Maior. O que conta é o fervor do sentimento e a espontaneidade do ato. É uma reverência especial da alma a sós com a Bondade Suprema, respeitosa na informalidade das palavras, verdadeira no rogo ou na exaltação que fluem do peito aberto.

Por tudo nos cumpre dar graças. Somente quando nossos corações se expressam gratos é que estamos prontos para multiplicar as graças generosas do Altíssimo. No milagre da Multiplicação dos Pães, antes de partir o pão e os peixes para serem distribuídos, Jesus os tomou nas mãos para dar graças.

Normalmente, o ser humano resmunga irritado diante das dificuldades ou do mínimo obstáculo a transpor na sua rotina. Não percebe que as refregas no quotidiano são oportunidades de fortalecimento e exercícios de perseverança. Desaprende a bendizer o dom da vida, a oportunidade de crescimento em cada novo dia, os dotes recebidos em abundância, as bênçãos que retém nas mãos. Sequer identifica as pequenas graças de cada instante ou reconhece nos pequenos prodígios o imenso amor com que o Pai Misericordioso nos unge com suas santas mãos.

Mas em tudo nos cabe um “Muito Obrigado” ao Eterno Benfeitor: no recebimento dos bens, das dádivas e dos milagres, assim como na passagem por provas, por sombras e por espinheiros, pois tudo faz parte da depuração necessária ao espírito na caminhada para a Luz.

É assim que, a cada dia, podemos ser e saber um pouco mais do que ontem.

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CRÔNICA 38

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sábado, 7 de novembro de 2009

ANJOS DISFARÇADOS ::: & ::: ANJOS DESCONHECIDOS


Carlos Drummond de Andrade nos legou, sabiamente, em versos livres, uma pista para aprendermos a enxergar e tatear o desconhecido muito além da lógica, da razão, do óbvio aparente:

...... “Se procurar bem,
...... Você acaba encontrando,
.......Não a explicação (duvidosa) da vida,
.......Mas a poesia (inexplicável) da vida”.

É por esse caminho, ensaiando quebrar a barreira do incompreensível, que eu venho falar de espíritos de luz – anjos disfarçados – que entram na nossa vida por uma razão específica, quase sempre despercebida pelos nossos sentidos humanos. É preciso abrir o coração para ver e sentir a presença desses guardiões espirituais, entes iluminados de estirpe elevada, mensageiros do Supremo Criador, incumbidos de cuidar da evolução da humanidade. Aparecem entre nós, assim eu creio piamente, transmudando sua natureza etérea em uma temporária forma humana, por um breve momento para um socorro numa necessidade extrema, ou por uma estação para trazer uma experiência de paz e aprendizado e até por uma temporada mais longa quando é chegada a hora de compartilhar, aprender e crescer.

Tê-los por perto independe de crença ou devoção. Basta cultivar a sintonia com a Divindade Superior, conservar-se em alta vibração, munir-se de pensamentos positivos, exercitar o amor e o auxílio ao semelhante, reerguer-se das falhas, confiante que merece ser feliz. De modo inverso, as atitudes contrárias geram as energias negativas, que por sua vez, baixam a nossa vibração e nos afastam dos nossos anjos guardiões. Ficamos vulneráveis a forças obsessoras, pois saímos da esfera de proteção dos espíritos de luz e com isso ficamos fora do alcance de sua companhia, fora da alçada de sua assistência.

Guardo relatos magníficos de passagens - casos reais - demonstrando, inequivocamente, visitas e intervenções de seres angelicais aqui na Terra. Deixo, por exemplo, aqui ilustrado, um conto de um acaso ocorrido que arrepia minhas lembranças até hoje:

O jovem de compleição física musculosa pilotava uma moto de grande porte, com certa velocidade, numa manhã de um Domingo ensolarado com um céu de brigadeiro. Acidentalmente, as rodas da moto resvalaram numa manta de areia seca sobre a pista e todo o peso do veículo precipitou-se sobre o corpo do condutor, imobilizando por completo os seus movimentos, de modo a impossibilitar qualquer tentativa de elevar-se do chão. O impacto violento esculpiu inteiramente e com profundidade a perna direita do motociclista no metal do tanque de gasolina. Olhando pelo visor do capacete, não vislumbrou o acidentado ninguém que pudesse socorrê-lo, até porque exigiria a junção de forças de várias pessoas para removê-lo do chão dado o volume de peso a suportar. Foi então que, surpreendentemente, aparece um estranho de razoável estatura, dotado de uma força extraordinária, que abaixou-se e com grande naturalidade levantou sozinho a moto e o motociclista. Perguntou apenas: “Você está bem?” e foi-se como um caminhante qualquer. Nenhum machucado, nenhuma seqüela resultaram do choque com o solo, apesar do estrondo e dos danos causados na carenagem da moto. Atônito, o jovem, até então cético quanto aos assuntos místicos, considerou a possibilidade de tratar-se de algo vindo do campo sobrenatural. Esse jovem é o meu irmão que, naquela manhã, estava indo almoçar comigo na minha casa. Ao me descrever o ocorrido, eu murmurei pra mim mesma: “Você recebeu ajuda de um anjo”. Tempos depois, ao voltarmos ao assunto, rememoramos um detalhe, um elo na montagem das peças daquele quebra-cabeça: meu dedicado irmão, após o acidente, viria a tornar-se o cuidador dos nossos pais até o momento em que ambos mudaram de endereço para a dimensão celestial. Assim, o jovem sobrevivente, intacto após um gravíssimo acidente, tinha uma missão especial a ser cumprida e por desígnios divinos, foi milagrosamente poupado.

Paralelo aos seres excelsos habitantes do Reino dos Céus, eu penso que existe, ainda, outro grupo de anjos, desta vez lotados na crosta terrestre: são os tutores da alma - anjos desconhecidos – de carne e osso que apóiam a nossa existência no plano físico. São verdadeiras dádivas divinas que com sua sabedoria, sua lucidez, sua força de caráter e, sobretudo, com seu amor incondicional, convivem conosco até por uma vida inteira. Quase sempre escapam aos nossos olhos e ouvidos a grandeza e o brilho desses seres devotados que, exercitando o amor em sua plenitude, mudam o rumo das nossas vidas: são aqueles que nos cercam na intimidade doméstica, nos guardaram o berço, incansavelmente dispostos a nos ofertar, silenciosa e generosamente, o carinho, a renúncia, a doação; são aqueles que nos guiaram à fé e nos sustentaram a infância para agora desfrutarmos das oportunidades que hoje nos felicitam; são as mãos humildes que nos auxiliam a modelar na alma a obra-mestra da esperança e da paciência e nos ensinaram a confiar e a servir; são aqueles que nada dizem, mas, que nas entrelinhas da convivência, muito fizeram e ainda fazem por nós ao preço de sacrifícios ferinos.

Vários desses anjos de carteira assinada, com contrato espiritual de amparo aos seus assistidos, jazem agora na retaguarda, cansados e envelhecidos, sentindo o frio da desatenção dos seus entes queridos, experimentando agoniada sensação de descarte. Alguns prosseguem devotados, mesmo na obscuridade, no cuidado aos seus tutelados, arrastando os pés à procura talvez de um chão de afetos. Outros muitos, embora enrugados e padecentes, arrastando as memórias consigo, carregam, nos bastidores, as cruzes dos seus assistidos até o último suspiro. A nossa desídia para com eles tem o mesmo efeito de descermos a mão pelo peito adentro e fustigarmos-lhes o coração.

Por tudo isso, eu deixo aqui um pedido: procure “na poesia (inexplicável) da vida” de Drummond, os seus anjos disfarçados ou desconhecidos que se ocultam na armadura da carne e de quando em quando, experimente o júbilo de ter sido agraciado por esses presentes de Deus e unte-lhes o coração com o bálsamo do reconhecimento e da alegria através de gestos simples, mas de grande poder e valor: uma frase de estímulo, um abraço de gratidão, uma conversa breve, uma prece, um agrado, um sorriso, um olho no olho com um “muito obrigado”.

Pense nisso.


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CRÔNICA 26
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sábado, 6 de dezembro de 2008

ASSOMBRAÇÕES DE ONTEM E DE HOJE


Meu pai tinha a propriedade de contar histórias com tal vivacidade, que deixava no ouvinte o efeito colateral das sensações “vividas” em cada narrativa. Mal caía a noite, nos finais de semana, e já os vizinhos e compadres se aproximavam para a habitual confraternização. Entre largas risadas, partidas de dominó e quitutes caseiros, a conversa seguia animada até altas horas e culminava inevitavelmente numa elaborada e intrigante história de assombração.

Os adultos tinham a cautela de “recolher” as crianças pela censura do horário e do conteúdo impróprio (assustador). Movida pela curiosidade, eu conseguia burlar a vigilância e esconder meus tenros cinco anos de idade embaixo da mesa, com a cumplicidade da barra de uma longa toalha de linho. Imóvel, para não ser descoberta, abraçando os joelhos, aguçava os ouvidos.


Era estonteante ouvir – na voz grave e suave do meu pai - o relato dos detalhes que iam tomando forma e davam vida aos personagens debaixo do nosso nariz. A entonação certa nas palavras e engenhoso arranjo das cenas garantiam os efeitos especiais na nossa mente. Essas histórias - na versão do meu pai - guardavam o suspense na sugestão, nada explícito, por isso o mistério se tornava tão atraente! Todos ouvíamos segurando a respiração, em absoluto silêncio, inebriados num misto de pavor e prazer. Ao final da sessão, os retirantes se ajuntavam em grupo por... “precaução” para o retorno às suas casas ali pertinho.

A minha participação nessa série acabou quando o meu esconderijo sob a mesa foi revelado acidentalmente. No meio do mais aterrorizante conto, certa noite, a luz desligou em todo o bairro e a escuridão ficou de mãos dadas com o meu medo. Assustadíssima, na clandestinidade, calafrios navegando pelas minhas costas, apertei as pálpebras com força para escapar do espanto, mas resolvi abrir os olhos no exato momento em que um infeliz vaga-lume atravessa a minha frente, materializando a minha imaginação com “pisca-piscas” ainda desconhecidos para a minha pouca idade. Aquilo foi demais até para a minha suposta “armadura” de coragem. Nesse instante se ouviu o som de um pequeno volume tombando sob a mesa: era eu, perdendo os sentidos... e o direito aos próximos capítulos.

Estamos em novos tempos. Das ingênuas histórias de assombrações do passado restam apenas imagens esmaecidas de fantasmas inofensivos e figuras lendárias desbotadas a me trazer saudade dos bons tempos. Agora, a meu ver, as pessoas se deparam, a todo instante, com assombrações de verdade, equipadas com tecnologia de ponta, GPS, armas de guerra, e sofisticado aparato eletrônico, gerando o pânico, distribuindo o terror ante a impotência de todos.

Posso apontar algumas das que realmente me assombram, nos dias de hoje, quando trazemos as noites entulhadas no coração e os dias em suspense em cada gesto:

- São a violência e a criminalidade, sob todas as formas, saltando os muros das residências, saqueando a tranqüilidade de qualquer um, invadindo a rotina das pessoas, agora, reféns do medo, inseguras com a própria sombra.

- É a poluição dos rios por lixo doméstico e industrial, colocando em risco os ecossistemas e afetando a saúde dos moradores circunvizinhos. É o bombardeio de gases poluentes derivados da queima de combustíveis fósseis, na atmosfera das grandes cidades, deixando em seu rastro as doenças respiratórias nos mais fracos (idosos e crianças).

- São as quadrilhas na Internet monitorando os clicks dos mouses e estendendo os seus tentáculos até as contas bancárias dos internautas desavisados. São os softwares camuflados que se alojam nos computadores, nos moldes de poderosas ervas daninhas, à espreita de senhas e arquivos pessoais, sangrando a vítima de forma anônima, cruel e irreparável.

A lista é grande. Não me cabe aqui exauri-la, mas ainda tenho esperança de sairmos da trincheira para a liberdade, com qualidade de vida, ainda que a partir das gerações vindouras. Eu acredito que o instrumento para exorcizar as maléficas assombrações modernas está na educação. Educação em todos os níveis, em todos os planos, em todos os sentidos, a começar pelo núcleo familiar: educando, ensinando, orientando, dando o exemplo, como dito no provérbio “Educai uma criança e não precisareis punir um homem”.

Assim, faço minhas as palavras do meu amigo e poeta Ely Guerra dos Santos:

Convoco a todos a fazer justiça com as próprias mãos:
com cada palavra escrita ou dita,
que haja a justeza e a justiça
dos que se dedicam à busca da equidade.
Possamos fazer da justiça o nosso ideal de perfeição
e exorto para que atendamos ao chamado do poeta que nos diz:

“Para ser grande sê inteiro: nada
Teu exagera ou exclui.
Sê todo em cada coisa. Põe quanto és
No mínimo que fazes.
Assim, em cada lago a lua toda
Brilha, porque alta vive.”


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Em memória do meu querido pai e inesquecível amigo
João Pessôa da Silva
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CRÔNICA 6