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sábado, 17 de setembro de 2011

O FAZ DE CONTA NA RAIA POLÍTICA

Era uma vez… Esta expressão tinha o efeito de uma senha para acesso a espaços de outros mundos. Tinha o condão do teletransporte de uma simples mortal, como eu, à Terra do Nunca de Peter Pan, ao País das Maravilhas de Alice, aos castelos de heróis invencíveis e segredos milenares. Qualquer aventura bem traçada com a instigante abertura dessas três palavrinhas ganhava a minha irrestrita atenção. Toda criança de menor ou maior idade já passou por esse portal.

Hoje, sem ir muito longe, percebo que viver num mundo de faz de conta faz parte dos nossos ensaios diários. Em todos os campos da atividade humana, poções engenhosas mascaram a verdadeira aparência de atos, fatos e tratos, mas a mim impressionam os mistérios do mundo encantado na raia política que circunda a nossa República, especialmente quando, no faz de conta para a imprensa, cria “realidades” com premissas irreais.

O frenesi midiático, de forma recorrente, canta aos quatro ventos que o Brasil tem um pé no Primeiro Mundo. Como se possível fosse tal passe de mágica no atual contexto com tantas circunstâncias adversas. Meu leigo pensar infere que existem proezas a cumprir em árdua escalada por pedras e espinhos antes de chegar ao cume.

Mas, nossos políticos e governantes teatralmente fingem que sabem o que dizem, juram que são transparentes no que mostram, que desconhecem o que escondem. E a população, incauta e de pouco saber, anestesiada com bolsas, promessas e outros encantamentos, faz de conta que acredita. Onde estão nossos heróis aclamados publicamente? Nossos supostos salvadores negociam em moedas diferentes das pactuadas nas urnas, barganham potes de vantagens numa teia alinhavada por duendes diplomados em lobby. Os poucos guerreiros combatentes estão extenuados. E o País tem, em seu pergaminho de visitas, registros e análises repletas de certezas da nossa marcha para o Primeiro Mundo. Os personagens do alto escalão apregoam - como mágicos da corte - fórmulas certeiras a garantir um salto para o altar. Minha bola de cristal me diz que há muita ficção, mitos e fantasias nos ares palacianos do Executivo. Penso que com tantas carências sociais não resolvidas, tantas enfermidades políticas crônicas, mesmo com todos os recursos dos contos de fadas, o tão querido Gigante Adormecido corre o risco de continuar em sono profundo por muito tempo, deitado em berço esplêndido.

Nem só de crescimento econômico vive um país para chegar ao topo aos olhos do mundo. Adianta nada proclamar-se potencialmente rico, se os pés estão atolados no charco da injustiça, se os pulsos estão algemados nas formidáveis garras das questões sociais da desigualdade social, da violência, da criminalidade. Se na cabeça, estão camufladas entre os cabelos as sinistras serpentes da corrupção endêmica, da ineficiência dos serviços públicos, da inexistência do respeito ao homem, enquanto cidadão, ou simplesmente gente.

A cura para tais males e feitiços que travam o progresso, tem na democracia o papel principal. Infelizmente, grande parte dos brasileiros está desabituada à reflexão e à leitura. E no tempo certo de votar, ignora o processo democrático com o voto nulo. Tudo culpa dos ventos letárgicos que gruem em suas mentes o rumor do conformismo e da indolência. Em democracia, não existe o imediatismo do “abracadabra”, há que se pensar, conhecer e optar, para colher os proveitos dessa participação coletiva. Democracia é um pacto coletivo, sem o efeito instantâneo do pó de “pirlimpimpim”. É um processo lento em sua construção, mas sua prática torna o presente transformador para um Brasil promissor no futuro. Um futuro com aquela mudança de ser, e não de estar de passagem.

Porém, está distante ainda, de subir ao pódio dos países desenvolvidos, porque além da educação, como pedra filosofal para transformação de um país, tem algo mais complexo e premente, que é a cultura. É daí que se manifestam as relações éticas e sobrevém o respeito repetido às pessoas, às leis, aos direitos alheios. Sobrevém o zelo dentro do silêncio, para com os espaços e os bens públicos, para com a Natureza, para com os valores humanos. E por extensão, outras alterações de comportamento vão gradualmente soltando a velha casca para ingressar em novo habitat. Mas, por enquanto os ouvidos são moucos aos apelos do avanço da mentalidade. Talvez em trezentos anos se opere a evolução social da sociedade brasileira ao tanto de erguer o Brasil a ficar olho no olho com os “donos do mundo”. Enquanto isso, meus anseios patrióticos são como áquilas que planam em círculos à espera de um prodígio. O prodígio da criação dos
nossos futuros guardiões da democracia moldados no barro da educação aprimorada, da formação de atitudes, da referência dos bons exemplos de brasilidade...   

Como romântica incurável, sofro de devaneios ancorados no coração, construindo possibilidades de um novo porvir para o meu Brasil e, quem sabe, passados três centenários, esse enredo seja diferente nas histórias que legaremos aos nossos descendentes, vestidas de um quase-poema:

Era uma vez... um país tropical, abençoado com um estirão de mar a correr em sua costa inteira, quebrando ondas em espumas na praia, de cima a baixo do mapa. Águas abundantes e profundas refletem os azuis de um céu que não se repete, e os verdes vivos de santuários ecológicos com tesouros em jazidas para além dos arco-íris. Lá no horizonte, a liberdade raia com o dia e abre as asas sobre uma brava gente que soube inventar, de suas despertas angústias, uma fonte de triunfos. Assim, essa amada terra chamada Brasil, onde nunca falece a coragem, encontra no peito e nos braços de cada filho desta Nação, as muralhas de suas fronteiras. Essa gente heroica aprendeu que é do exercício da liberdade na democracia que emana sua força e poder para promover novos tempos. Tempos de um Brasil mais ousado, mais culto, mais próspero, mais humano em seus caminhos e conquistas e, mesmo não sendo a personificação do poder econômico num mundo onde impera o mando dos Estados opulentos, logrará ser auspicioso de sonhos e anelos capazes de imanar os formadores de uma Pátria mais fraterna e justa. Aqui se cumpriu a predição da fada-madrinha de nome Esperança, que com seu terceiro olho, previu em cada ajuntamento de brasileiros, a expressão da consciência cívica e social, e hoje, cada habitante deste sagrado torrão, levando nos bolsos os ideais, usa a fala do entendimento e do apreço para o coletivo, como mensageiros da paz, da ordem e do progresso. E assim, o Brasil, por seus filhos amado, poderoso e feliz há de ser... para sempre.

Ainda que incrível pareça, acreditar ajuda a tornar possível.

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CRÔNICA 49
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sábado, 19 de fevereiro de 2011

ÀS VOLTAS COM A CRISE

A manhã se cobriu de clima ameno, naquela nuance entre o sol e a chuva com cheiro de vento fresco a correr casa adentro. Animada com a folga do calor, me instalei na varanda com um notebook e uma caneca com café caseiro  aquele adubado com mel e rapadura  para desenhar um projeto gráfico que estava na lista de espera do meu tempo sempre corrido. Entretida com a fluência dos traços, segui por horas, focada no melhor resultado possível. Quase pronto, no ponto, suspendo o encerramento para revisar cada detalhe exigido pela minha incurável mania perfeccionista. Nisso, um estrondo ao longe estremece tudo, da terra ao ar, aí incluídos os ninhos dos passarinhos que se hospedam no meu quintal. A música silenciou, tudo em volta se apagou e o notebook, com a carga da bateria cansada, deixou escapar todo o conteúdo, ausentando-se involuntariamente em forçoso abandono de tarefa e levando junto, a contragosto, todo o meu esforço para o negrume da sua tela. Foi quando me dei conta de que não havia salvado o trabalho inteiro, desde o início, e meu elaborado arquivo foi despejado nas profundezas de lugar nenhum. Ainda fora do ar com o impacto das perdas e danos, recolho os cacos da lição bem aprendida.

A frequência desses caprichos de oscilações de corrente e queda de fases, combinados com os rumores de panes na subestação, curtos-circuitos e ameaças de racionamento, sinalizam uma confissão escancarada de que estamos às voltas com a crise energética.

E pensar que tudo começou no início dos anos 70, lá pelos idos de 1972. O “ouro negro” começava a escassear, tornava-se privilégio de um povo até então sem grande notabilidade: os árabes. O preço do petróleo foi às alturas. Com ele, porque transportáveis, todos os bens de consumo. Os reflexos se fizeram sentir no mundo inteiro. O fenômeno alimentava a voracidade de um gigante que despertava: a inflação. O problema assombrou o mundo. Urgia adotar soluções. A Revolução Industrial e o avanço tecnológico cada vez maior nas indústrias, principalmente na expansão automobilística, reclamavam, em níveis sempre maiores, os derivados do petróleo.

Movido pelas necessidades, o homem se atirou à pesquisa, tendo buscado no carvão vegetal e no álcool extraído de diversas plantas, novas alternativas. A iniciativa foi estimulada em concursos e simpósios, e começaram a surgir os primeiros resultados. Desse filão, veio ao mundo o carro a álcool - tecnologia brasileira – hoje largamente difundido, figurando nas feiras internacionais pelo mundo afora.

A busca incessante pelas opções alternativas de energia prossegue e ganha mais um trunfo com o apoio e o incentivo dado às usinas hidrelétricas em substituição às termelétricas, trazendo o oportuno proveito da enorme economia de combustível, já que a força motora é provida pelo impulso da própria água represada. Por sua formidável fartura de águas, o Brasil, construiu seu sistema de energia elétrica baseado na geração hidráulica, justamente pela abundância de seus recursos hídricos. Depois disso, a escassez energética esteve, temporariamente, sob rédeas, mas o fantasma da crise rondava incansável à espreita da oportunidade para a investida.

Nesse cenário, outras medidas alternativas empunharam as armas para bater de frente com a aparição da crise energética. Brotaram, então, os experimentos candidatos a salvar o barco, com a utilização das tecnologias solar, eólica, geotérmica, até àquela resultante da queima de restos orgânicos – a biomassa. Mas, a expressiva fonte de geração de eletricidade no mundo, se firma com a energia nuclear trazida pelo avanço tecnológico, hoje, com centenas de usinas nucleares em operação. Essa prodigiosa conversão do átomo em energia tem suas vantagens e inconveniências para a humanidade: entre os prós, como as abundantes reservas de combustível, se contrapõem os contras, como a produção de lixo radiativo e o aterrador estigma de acidentes.

Porém, aqui no torrão pátrio, o sistema energético brasileiro ainda tem gargalos apertados que hoje alimentam a nuvem negra da crise se avizinhando. Todos sabemos que a infraestrutura brasileira é insuficiente para atender a atual necessidade do País, e o setor elétrico padece de problemas de natureza estrutural até hoje não equacionados e nem mesmo assumidos perante o povo. Mas, ao longo dos anos, nos relatórios e pronunciamentos do alto escalão do governo, os “poderosos senhores” na gestão dos negócios públicos atestam, com os dedos cruzados, a suficiência absolutamente garantida no sistema de geração de energia, e deslocam o sistema de transmissão - que transporta essa energia gerada - para a conveniente categoria de vítima. Uma vítima de “estiagens imprevisíveis arremessadas ao espaço geográfico brasileiro pelo guardião celestial das questões atmosféricas aqui, no Planeta”. Juram, de pé junto, que a infraestrutura energética no Brasil é perfeita, robusta, sólida e estável. E, à revelia, São Pedro – o santo e inocente Apóstolo – é acusado injustamente, sem ter passado procuração a nenhum mortal para sua defesa neste fórum terrestre. A verdadeira responsabilidade do risco de um colapso energético a que estamos submetidos é do descaso com que a severidade de assunto tão grave tem sido tratada pelas autoridades competentes. E já não é mais possível confiar em políticos e governantes – sejam de quais cores provenham seus partidos – que sistematicamente enganam a população com “verdades” insustentáveis, escamoteiam suas deficiências, cultivam a negligência como se virtude fosse e escondem as farsas e traças embaixo do tapete.

Antes do tratamento de choque ao pesadelo iminente dos blecautes, aqui no Brasil, carece resolver, na raiz, o apagão crônico da credibilidade da administração pública, em xeque.

Como leiga, me abstenho de apontar pretensas soluções para a atual crise, tão complexa. Mas arrisco meu palpite na premente necessidade de o País debruçar-se sobre as possibilidades de produção de energia, congregando pesquisadores, favorecendo o compartilhamento dos estudos entre os especialistas, na busca de uma luz no fim do túnel. Indispensável reprisar a imperiosa urgência de investimentos em geração, transmissão e distribuição de energia. É por este caminho, assim penso: investimento. Investimento para modernizar, para permitir o crescimento econômico, para esconjurar a assombração da crise. Outro pitaco que arrisco é exigirmos um governo aberto às contribuições de todas as forças atuantes: empresariado, sociedade civil, peritos habilitados e comunidade científica, formando parcerias para somar forças e combater o perigo – que plana sobre o nosso sono – de condenar os brasileiros à escuridão tenebrosa do apagão.

Aqui, retomo meu trabalho perdido no episódio desta manhã. Como tudo tem uma razão de ser, o incidente hoje acontecido deixa uma sugestão para se pensar, também, nas soluções dos pontos de estrangulamento no nosso modo de viver, quando sentimos a vida prender-nos os movimentos. Às vezes um choque de poucos volts de tensão corretiva ou reparadora, trazido pelas intempéries da vida, precisa ser por nós dissecado, porque esconde o condão de nos despertar para novas descobertas e apontar novos caminhos. Outras vezes, quando o silêncio se impõe sobre o nosso ânimo, e pensamentos negativos nos submetem à densa energia, abatendo a carga das nossas forças a quase nos apagar, temos o recurso infalível de reverter para a vibração em alta frequência, simplesmente dirigindo a mente para o polo positivo, a querer do mundo tudo que de melhor ele tem. E por fim, sempre que as quedas de corrente em nosso sistema emocional ameaçam a sobrevinda de crises ou apagões desencadeados pelas nossas fraquezas humanas, temos ao nosso alcance o poderoso investimento nas forças da Luz – sublime fonte geradora da mais alta e pura energia  que irradiará com luminoso brilho o campo energético do nosso halo, para todo o sempre.  


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CRÔNICA 42
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segunda-feira, 9 de agosto de 2010

COM A PALAVRA, NÓS - OS BRASILEIROS!


Ainda não sei se é pela vinda de Setembro trazendo a Primavera embrulhada nas cores da Pátria ou se é pela proximidade de Outubro apregoando a chegada das eleições presidenciais. Sei apenas que sinto o tempo girando a chave do mecanismo de corda que acocha o nosso peito e liga o sinal de alerta em nossos sentidos neste importante momento político, quando a força do voto perante a urna imprime legitimidade à sentença: “Com a palavra, nós - os brasileiros!”

A pauta da imprensa está voltada, com todo o poder de fogo, para a classe política. A mídia vira os holofotes para a corrida presidencial, submetendo todos os participantes a uma hiperexposição ao público pelas molduras das vias de comunicação, nas campanhas compulsórias, nos debates eleitorais e na propagação de suas imagens nos telejornais diários. Porém, funesto é o efeito de tanta mostra: à guisa dos danos produzidos na fotografia antiga, é na superexposição à luz, que se queima o filme.

As lentes atentas das câmeras revelam a face oculta de cada um por detrás da maquiagem. Sob o manto da dissimulação, candidatos constroem em suas falas, muros de falsas verdades encobrindo fatos irreveláveis. E com as ‘mãos no coração’, em atitude comovente. A prioridade de todos - as chamadas metas – são as mesmas promessas vãs, eleitoreiras e marquetizadas: saúde, educação, segurança e progresso. Na verdade, todos os presidenciáveis parecem portar o vírus que ativa uma estranha metamorfose após a vitória nas eleições: "perdem a lembrança" de todas as juras feitas no palanque, desqualificam os votos arrancados da esperança de uma população crédula e compactuam com a mesmice, participando do jogo viciado de sempre; buscam a suntuosidade dos palácios, o aparato das cortes, a adulação da diplomacia, a troca de presentes com os demais mandatários, a oportunidade de estar distante de Brasília, em solo alheio, fora do alcance do monitoramento de seu povo, atolados nas mordomias, cercados de lacaios. Na verdade, ninguém deseja administrar a máquina para consertá-la e sim para aproveitar-se dela o quanto possível, assegurando, para o si e para o seu clã, tempo maior na abastança com a manutenção dos privilégios oligárquicos.

Talvez pela constância desse “déjà vu” no cenário público, o descrédito e a desconfiança tenham assolado a cabeça de um desconhecido e brilhante jovem formando em Administração. Ao conversar comigo, dias atrás, sobre a iminência do horário político mostrou-se enfático: “Não sou ligado em política. Nem conheço os candidatos, voto por obrigação, mas nem escolho nome algum. Se pudesse me abster de votar, ficaria longe desse sistema que elege uma corja de incompetentes e enganadores. Não acredito em nenhum deles.” Diante de tal depoimento, muito me aflige perceber que essa postura reflete a convicção de expressiva faixa da juventude. Ao pensar que somos a imagem de quem elegemos, temo pelo distanciamento dos eleitores alienados que se alijam do processo e deixam a Nação à deriva, afogando-se no caos. Temo, por outro lado, diante das más escolhas, que o meu País fique girando em círculos, num retrocesso de si, sem solucionar seus problemas e sem demarcar um rumo para o futuro. Razões como essas, ilustram que a importância de valorizarmos o voto consciente, está muito além dos aspectos legais, éticos e políticos, está num “quê” de compromisso pessoal com a Pátria.

Todo cidadão tem o dever cívico e sagrado de depositar o seu voto na urna para dar alicerce eleitoral à Democracia brasileira, porque a Democracia é o mais eficaz sistema de organização social a permitir a prática da liberdade de ação e de expressão. Porém, o simples fato de se ter vivência num regime democrático, não garante o resguardo da condição de liberdade. Assim explico o meu raciocínio: O processo eleitoral seleciona os representantes do povo para os cargos mais importantes da Nação. Nesse momento, um povo sábio e bem informado se utiliza da Democracia para afastar os embusteiros e criar prosperidade ao país. Mas um povo ingênuo e inculto, consente que os demagogos e os impostores, atuando como verdadeiros gângsteres, controlem a Democracia e manipulem as rédeas do país.

Infelizmente, o voto em branco, assim como o voto nulo, ainda que representem um protesto, um manifesto contra as opções existentes, na prática não produzem efeito algum no resultado das eleições, pois não são considerados no cômputo como parte válida do resultado. Justo e razoável seria se o voto em branco validasse a rejeição popular aos candidatos àquele cargo, ensejando o esvaziamento da cadeira correspondente e forçando à nova composição partidária mais seleta. Certamente os partidos, temendo por tal resposta nas urnas, selecionariam, com apurado zelo, representantes mais qualificados técnica e moralmente. Assim, o resultado das eleições se configuraria numa real e autêntica vontade popular, sem a imposição atual de obrigatoriamente escolher entre maus candidatos. Com isso, a melhora do nível e da qualidade no staff do corpo político brasileiro tomaria forma na alavanca para um Brasil progressista, para o Gigante adormecido acordar e se transformar.

Eleger o Presidente da República é questão da mais alta importância, porque aí reside decisão sobre os destinos da Nação. Há que se deter com responsabilidade sobre a escolha. Há que se conhecer a biografia, analisar o perfil e observar o proceder dos aspirantes. A reputação de um governante, a meu ver, não começa a partir do seu mandato. A tarimba do Chefe de Estado começa bem antes: na sua trajetória política, no apoio que é capaz de articular e sustentar, em suas aptidões para lidar com a coisa pública. Mesmo na condução de sua campanha põe à vista o seu preparo técnico e suas habilidades políticas. Sua imagem, acima de tudo, impende estar associada à ideia de força, de congruência, de solidez, de independência.

A Democracia exige que o candidato ao mais alto posto executivo convença a todos os governados, ter autonomia nas ideias, capacidade de liderança não só sobre o sistema político, mas na interação com a sociedade, carisma para congregar parcerias e com isso abrir novos horizontes aos avanços do país, firmeza para combater conveniências dos poderosos que ameacem a estabilidade da soberania do Estado. E por tudo isso, governar na trilha da razão mas de coração voltado para a totalidade da população, especialmente para a faixa dos explorados e indigentes, que sobrevivem em condições sub-humanas, sem dignidade, sem pátria, sem paz.

Talvez seja essa uma visão demasiado romântica para o Brasil surreal de hoje, mas esperanças, as tenho de sobra.


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CRÔNICA 37
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terça-feira, 29 de setembro de 2009

UMA SELEÇÃO “DIFERENTE”


No primeiro Sábado deste mesmo Setembro de 2009, estava eu frente à TV à espera do jogo entre Brasil e Argentina a disputarem uma das quatro vagas sul-americanas para o Mundial da África do Sul em 2010. Todo brasileiro que se liga em futebol na Copa, mesmo que por um vago ardor patriótico, investiu rezas e promessas a pagar com juros para ver o Brasil classificado, garantindo, mais uma vez, presença na Copa do Mundo.


Na versão dos entendidos, tratar seriamente de futebol é algo admitido somente aos jornalistas. Uma corrente de chauvinistas também assegura que futebol é assunto ligado ao universo masculino. Para mim, o esporte é arte, é uma das mais interessantes ocupações do fazer humano, onde valores humanos individuais e coletivos se comunicam positivamente. No futebol, sou atraída pela instigante estratégia para buscar a vitória. Também aprecio a beleza surpreendente de um primoroso drible. Vibro com os lances elaborados com talento na condução da dança de uma bola repentina, imprevisível e caprichosa. E quando se trata do futebol da Seleção Brasileira, confesso: é paixão sem limites me queimando nas veias um verde-amarelo abrasador.

Durante o jogo, lembrava-me que no momento em que os jogadores vestem a camisa da Seleção e entram em campo, suas pernas são movidas pelas batidas de milhões de corações brasileiros a produzirem uma onda magnética poderosa, apontando o caminho aberto para o gol. É uma unanimidade nacional, na esperança de manter a nossa excelência no futebol: aqui, acabam-se todas as divisões; dissipam-se todas as diferenças econômicas e políticas, etárias ou sexuais; misturam-se todas as castas, credos e raças existentes em nosso território para empenhar o coração a cada passe.

Mas, nesse dia, depois do jogo, percebi rupturas que fragmentaram o meu entusiasmo pela Seleção Canarinho. Uma euforia estremecida me sussurrava um certo desgosto (ou desgaste?) acumulado diante de uma Seleção “diferente” para o mesmo Brasil.

Consta registro em minha memória, que até 1982 o Brasil tinha uma relação de amor com a sua seleção de futebol: além da conquista, à época, de três taças, apresentava-se em sensacionais partidas nos estádios brasileiros à guisa de espetáculos de primeira grandeza, orvalhando os nossos olhos com a performance dos seus ases. O Brasil tinha uma predisposição para produzir os grandes mestres de chuteiras a tocar a bola – a sedutora esfera, objeto de desejo em campo – com extraordinária precisão e genialidade. A convocação de um craque tornava-se a mais alta honraria conferida para a consagração na carreira. Esses mesmos jogadores, quando fora da seleção, atuavam aos domingos, defendendo a bandeira das suas agremiações em terras brasis. No fragor doméstico, transitavam entre a idolatria e a hostilidade do torcedor devoto mas, ao vestirem a camisa amarela, recebiam a procuração de cada brasileiro para chutar a bola em nome da Pátria.

Vejo, com um saudosismo insistente em me alastrar de reservas, que não é mais assim. Há muito tempo a Seleção é apenas um agrupamento de jogadores com atividades no exterior, defendendo emblemas estranhos aos nossos sentimentos. Já não nos brinda em casa, em nossos estádios, com o desempenho brilhante de seu plantel. E na última Copa, a Seleção convocada na Europa não veio até o solo brasileiro, nem mesmo para protocolar a confiança do povo que representava diante do mundo.

Razões diversas levaram a Seleção a se desagregar da sua gente. Deixou de expressar o sentimento de exaltação à brasilidade. Não vejo mais a Pátria amada ali conjugada, apenas uma delegação estrangeira que antes das competições canta, sem expressão, o nosso venerado Hino. Com um furor assombroso, o dinheiro corrompeu algo valioso existente há algumas décadas: o amor do atleta ao sacramentado uniforme azul e amarelo. O orgulho de compor uma Nação de guerreiros ficou na ficção. O laço emocional entre jogadores e torcedores ficou esgarçado ao ponto extremo do torcedor ter apego maior ao próprio time em detrimento da Seleção. A maioria dos ex-ídolos nacionais manifesta claramente a preferência em atuar por seus clubes milionários mundo afora. É a arrogância ganhando volume com as transferências milionárias de estrelas e com os contratos estratosféricos de publicidade, fermentados pelo poder alarmante da mídia, tudo isso desde que o futebol brasileiro estabeleceu-se como um poderio.

Nessa marcha, arrisco a preconizar que aquele antigo clichê de que “o futebol da Seleção é uma das poucas alegrias do sofrido povo brasileiro”, está muito distante dos fatos. Na prática, os torcedores ficam em segundo plano, como meros acessórios do cenário futebolístico. O futebol, na realidade atual, é uma indústria, serve, seguramente, muito mais a interesses financeiros de líderes que gerenciam as expressivas movimentações de capital, como empresários, dirigentes, cartolas, políticos, etc. E serve, principalmente, a interesses de jogadores que têm em mira a atenção e o papel-moeda dos times europeus para futura escalação pelos esquadrões galácticos, mas para isso, precisam do “trampolim” de uma seleção vitoriosa.

Insta que essa conjuntura nebulosa no futebol seja revisada e submetida a uma nova formulação para viabilizar mudanças estruturais necessárias a resgatar a febre da torcida apaixonada; a resgatar o grito que explode com emoção a mil graus pelo gol feito com a intensidade do nosso fervor através dos pés habilidosos dos nossos heróis.

Pura ilusão a minha proposta... pois o dinheiro move o mundo, está acima da razão e do coração e, como disse, certa vez, Nélson Rodrigues, “só os profetas enxergam o óbvio”.

Mesmo assim, ainda vejo na Seleção Brasileira de Futebol uma instituição imortal. O Brasil tem no futebol um fator de identidade. O esporte das massas (e das elites) expressa a sociedade em muitos aspectos e, nesse sentido, a Seleção se torna a representante das nossas tradições nos gramados.

Entretanto, para renascer em mim a magia do futebol-arte, o encanto do princípio, é preciso que a Seleção esteja de volta ao meu coração para a camisa amarela entranhar novamente no peito.
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terça-feira, 8 de setembro de 2009

BRASIL ENFERMO

Cedinho da manhã de Sete de Setembro. No prédio onde moro, o elevador abre a porta num dos andares e uma vozinha mirim meio rouca apressa: “Anda, mãe! O elevador chegou”. Dois garotinhos de bochechas rosadas e cabelos arrumados com gel, cheirando a colônia de barba e aparentando oito vivazes anos, empunhavam miniaturas da bandeira do Brasil. Afobados, levantaram a voz, segurando a porta: “Mãe, eu não quero chegar atrasado no desfile da Independência”. Há tempos eu não presenciava essa manifestação de ardor cívico com esse espírito de brasilidade explícita. A mãe apareceu esbaforida, capengando, uma mão ocupada com batom e a outra fechando o último brinco na orelha, ao mesmo tempo em que tentava encaixar os sapatos nos pés. Justificou a euforia dos moleques: “Eles são apegados às coisas do Brasil. Conhecem toda a Geografia e principais fatos da nossa História. Querem se tornar políticos para trabalhar pelo Brasil e ficam disputando quem se aprofunda mais ou quem melhor se prepara. E eu fico na linha de fogo dessa concorrência”. Nesse instante, um dos gêmeos, com o desembaraço e o charme de um comunicador de massas, levantou o polegar com veemência, afiançando o discurso da mãe. Todos demos risadas.

Enquanto o elevador “viajava” até à garagem, minhas idéias se transportaram espaço afora até o Congresso Nacional – a Casa do Povo – onde a teoria reza que a democracia ali toma corpo na genuína representatividade popular. Adentrando os umbrais da imponente obra arquitetônica de Oscar Niemeyer, na capital do País, vem à tona a enfermidade que aflige o Brasil e se prolifera entre o alto escalão da classe política brasileira: a corrupção endêmica e o crime político organizado. Uma minoria incorruptível que se imunizou do contágio tenta, infrutiferamente, a desinfecção da casa para deixar os caminhos políticos limpos e livres da infecção pestilenta. Essa moléstia é alimentada pela mentira sem pudor e pela certeza da impunidade; reforça a resistência com a desinformação do eleitorado e com a conivência partidária com os delitos cometidos pelas quadrilhas de colarinho engomado; conta com a lentidão da justiça e com o tempo a transcorrer para ativar o nosso esquecimento e anestesiar a nossa memória.

No período pré-eleitoral, fervilha entre nós a expectativa da renovação das forças morais para atender à necessidade que tem a Nação de melhorar a representatividade parlamentar: envolvimento com o interesse público, amor ao país, elaboração de leis igualitárias e solidárias, etc. Porém os maus políticos eleitos e seus ultrajantes episódios prestam um abominável desserviço à democracia. As catástrofes vêm sendo publicadas e reveladas pela imprensa com todas as letras, todas as evidências e todas as provas, expondo as vísceras corruptas de um Brasil enfermo.

Blocos de demagogos e populistas assolaram a nobre Casa Legislativa onde parece que ninguém apóia ninguém por convicção ideológica; parcerias e alianças são pactuadas, unicamente, visando interesses financeiros, numa troca de vantagens pessoais em prol da mediocridade. Posso listar algumas mazelas mais recentes que levaram a República, desmoralizada, a verter dos olhos fios contínuos de sangue: financiamentos não declarados nas prestações de contas do país; negociatas de cargos na administração pública e nas estatais; verbas indenizatórias fantasmas dos deputados; ONGs imaginárias e convenientes; voto de congressistas, induzido e barganhado; manipulação, pelos partidos, de recursos de alta soma, suspeitos quanto à origem; cumplicidade habitual entre empreiteiras e políticos; atos secretos que ofendem os princípios da publicidade e da moralidade da administração pública; alianças espúrias em nome de uma governança, que a meu ver, não garante nenhuma governabilidade, e sim a gerência de interesses particulares escusos e inconfessáveis.

Ora, até mesmo um leigo percebe que as revelações trazidas pelas denúncias e o que se desenha nas investigações desprestigiam e desqualificam a -p-o-l-í-t-i-c-a- que é, justamente, a essência, o cerne do processo democrático. Não se trata mais de uma simples crise do Senado ou da Câmara Federal, isoladamente. Verifica-se uma crise da democracia representativa e de seus valores. Como se referiu Arnaldo Jabor em recente comentário: “Não se trata mais de um problema moral. As instituições estão sendo implodidas por dentro, pelos próprios donos do poder”.

E a que se deve toda essa degenerescência a conduzir a História em marcha a ré? Julgo que advém, principalmente, do famígero “jeitinho brasileiro”, da conhecida e execrável malandragem de antipatriotas para empregar a coisa pública na satisfação de intentos privados de um grupo seleto de oportunistas. E iria mais longe: da falta de educação doméstica, da má-formação do caráter que lhes extirpa o escrúpulo e a hombridade, e lhes cobre a hipocrisia crônica com um cinismo desconcertante. Nossos maus representantes, fingindo legislar, abusam de seus poderes e defendem seus interesses próprios, protegidos pelo intocável campo de força da imunidade parlamentar. À margem da falta de compromisso com o bem social, com o interesse coletivo, mínguam-se recursos para atender às prioridades como educação, saúde, segurança, saneamento básico e rede viária. As antigas bandeiras da justiça, da liberdade e da ética na política foram relegadas ou enfraquecidas por um pragmatismo cáustico e sem firmeza ideológica nenhuma.

Todos sabemos que a corrupção é uma chaga universal. A tendência maléfica para a corrupção está implantada na natureza humana desde o início dos tempos. Faz parte do pacote genético que recebemos para esmerilar a nossa índole. Mas grande parte dos políticos engolfa-se vorazmente nas torpezas dos seus instintos anti-sociais e se coloca acima das leis, esquecendo-se da inevitável contabilização dos atos diante do Supremo Juiz no Tribunal de Contas Divino. A corrupção zero é utopia, eu bem sei, mas a sociedade tem o dever de persegui-la como meta maior e cobrar rigor no trato da coisa pública pelos agentes políticos escolhidos nas urnas. É preciso fazer valer a cidadania e votar corretamente para renovar por inteiro o nosso quadro de representantes e, assim, reverter esse panorama viciado. Não existe democracia sem um parlamento ativo, isento e independente. Todos devemos defender e preservar a magnitude daquela elevada instituição, escolher com melhores critérios e consciência cívica os candidatos a merecer a honra de tocar com os pés os salões do Congresso Nacional brasileiro.

É preciso, ainda, mais que tudo, uma melhor formação das crianças, porque da população infantil mal formada brotam também políticos. Urge que forças edificantes da sociedade, como a família, a escola, a igreja, estendam a educação no sentido do desenvolvimento integral do indivíduo, para a formação de cidadãos melhores, conscientes, éticos, responsáveis, dignos. Que se cultive a aversão à antiga cultura da esperteza, da lei do mais forte, do privilégio, das facilidades clandestinas e outros caminhos desmoralizantes. Os esforços devem concentrar-se na abolição do orgulho, do egoísmo, da cobiça e da ganância que nos levam a burlar leis. A origem do problema é humana, é básica: é a inexistência da solidariedade, do altruísmo, da honestidade, do amor, do decoro, da coragem, do bem...

Depois de toda essa aventura pelas sessões do Poder Legislativo, retorno a minha atenção à companhia dos simpáticos vizinhos e me flagrei envolvida num misto de alento e orgulho por ter testemunhado o vigor e o entusiasmo dos pretensos futuros congressistas, ali na minha frente. Ao nos despedirmos, brinquei com razoável seriedade: “Sucesso aos senhores na carreira política”. E intimamente, completei: “Oxalá na sua safra, essa Pátria amada, idolatrada que é o nosso Brasil em berço esplêndido, possa clamar: “Já raiou a ética no horizonte do Congresso Nacional”. ...Sonhar, não custa.
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CRÔNICA 22
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