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segunda-feira, 25 de julho de 2011

ÚTIL TODA A VIDA


Levantei muito cedo, numa hora em que a madrugada ainda vela o sono dos viventes sob o piscar da estrela D’Alva. Insones, as meninas dos olhos teimam em vigiar a chegada da manhã, à espera daquele espetáculo de efeitos especiais luminosos, alumiando o acordar das pestanas do dia. Na minha varanda, alguns pássaros despertadores aturam os ensaios do meu pensamento rabiscando palavras e escrevinhando divagações. Tudo é alumbramento no nascer do Astro-Rei que, em aparição ostentosa, rutila o brilho do diamante nas diminutas gotas de sereno a pender das folhas. E a Natureza prossegue no seu ritual cíclico de sustentação do Planeta. Vejo uma nova oportunidade de nos vestirmos de vida e de recriarmos um estar vivo atuante, útil, vibrante.

Debruçada no parapeito, vagueio pelo quintal dos meus botões, onde tenho uma posição particular frente ao mundo dos vivos sobre a humana criatura em seu caminhar na Terra. A mim, sugere o homem ser uma produção em fase de acabamento até que atinja o estágio de evolução necessária. Polimentos desbastam a pedra bruta em alguns exemplares da raça humana no rolar dos dias, enquanto outros tipos retornam à Idade da Pedra, escareando as cavernas dos seus retrocessos. É imperioso o avançar, o projetar-se à frente, ainda que hesitante sobre a corda bamba. Isso é determinante para quem se sente ou se diz, supostamente, racional e vívido, detentor de acuidade e lucidez.  

Dependendo do barro com que nos construímos, teremos ou não, lá no final do barbante da vida, quando impossível for manter a verticalidade do esqueleto, respostas às inevitáveis perguntas: O que eu fiz? Que diferença trouxe para este mundo que me emprestou morada? Realizei algo? Que ajuda prestei? O que fiz pelo país, pelos outros e por mim? Para muitos, haverá um sol no coração, como um plasma vivificante, mas para outro tanto, a escuridão ecoará um visceral silêncio.

Porque viver é um risco de curta duração, e impõe uma marcha de mão única, tal como um rio, sempre avançando até chegar à foz. Não há tempo sobrante para voltar atrás e desfazer qualquer fragmento vivido.

A cada instante, o tempo vai nos soprando o estridente recado de que a areia da nossa ampulheta está se esvaindo, mas insistimos em desviar tal linguagem, para um surdo e conveniente “depois”: depois eu faço, depois eu vejo, depois eu ajudo, depois eu digo...

O bicho-homem foi moldado para ser gregário e interagir com os seus iguais. Condenado ao pensar e ao sentir, bebe no cálice do livre arbítrio as escolhas para conviver com as diferenças e galgar o patamar de um ser humano melhor. Assim são pinceladas as cores das leis naturais.

Mas, na prática, diuturnamente, esse humano ser alimenta o vicioso ciclo da busca pelos mesmos fúteis objetivos. Sai desenfreado numa corrida, focado, ininterruptamente, na mesma distração: a luta incessante pelo prazer do ter, pelo dinheiro como fim em si mesmo. E enquanto mantém a cabeça voltada a beber nessa fonte, deixa de olhar as oportunidades de ser útil, durante os dias de uma vida inteira. Com os remos da ambição, navega em águas revoltas de paixões, completamente esquecido de que, a qualquer momento, o fio entre o nascer e o morrer vai se romper, frente aos umbrais de sua derradeira morada.

Isso me lembra uma fábula antiga, onde um homem muito rico e muito ocupado, morreu e foi recebido no céu. Em vida, foi pouco pecador com os seus haveres, mas tornou-se displicente com a lavoura de suas plantações espirituais. Deixou o coração em terra árida, dessas terras baldias que ninguém lavra. O Anjo guardião conduziu-o por várias alamedas e foi-lhe mostrando as moradias. Passaram por uma casa com linda fachada e belos jardins circulando um riacho límpido sobre um leito raso de seixos. O homem perguntou, curioso: - Quem mora aí? O Anjo respondeu: - É o Ronaldo, aquele seu motorista que morreu no ano passado. O homem se pôs a pasmar, matutando: "Puxa! O Ronaldo tem uma casa milionária! Aqui deve ser muito bom!" Mais adiante, num gramado extenso, pontuado por palmeiras, deparou-se com uma outra edificação, ainda mais bonita, mais glamourosa, e ele indagou: - E aqui, quem mora? O Anjo respondeu: - Aqui é a casa da Rosalina, aquela que foi sua cozinheira. O homem ficou a ver crescer-lhe um mar no peito, presumindo que, tendo seus empregados magníficas residências, sua habitação deveria ser, pelo menos, nos moldes de um palácio. Estava ansioso por vê-la. Nisso, o Anjo parou diante de um barraco construído com tábuas toscas e deterioradas, cobertura de palha vazada sobre moirões carcomidos. E estava frio naquele lado do mundo, com a geada a entranhar-se no solo. Apontando o Anjo para a rústica cabana, disse: - Esta é a sua casa! O homem, sentindo nevar-se da boca ao coração, explodiu indignado: - Como é possível? Eu vi, no trajeto, construções grandiosas! - Sim - respondeu o Anjo -, mas nós construímos apenas a casa. O material é selecionado e enviado por vocês mesmos. Você só enviou isso! O homem queria fechar os olhos e fugir para outra paisagem. Queria emprenhar sentimentos de reparos. Mas, irremediavelmente tarde, seu prazo havia exaurido na Terra.

Cabe a cada um descobrir a sua verdadeira utilidade para este mundo e construir a sua contribuição durante sua existência. De forma holística, eu diria, para deixar o mundo um pouco melhor do que encontrou ao chegar. Útil por toda a vida, mesmo em pequenos gestos, como aquele de dar e receber com a mão em concha, enxergar além do próprio umbigo, considerar o todo ao seu redor.

O Sábio Criador do Universo nos legou a inteligência para absorvermos cada avanço da contagem do tempo e com isso aprendermos a crescer em todos sentidos. Deixou implantadas em nosso DNA, todas as sementes das capacidades humanas para brotarem se despertadas, para emergirem se evocadas em grandes ou pequenos feitos. Adicionou uma dose extra de saúde e vigor, projetou um intervalo de validade suficiente e, ao dar-nos o sopro da vida, sutilmente nos sussurrou: “Faça a sua parte, filho. Ficarei à sua espera”. A vida e a morte são o verso e o anverso da mesma medalha a ser devolvida ao Criador Onipotente. Carece darmos o devido lustre na efígie do nosso viver para fazermos a diferença no brilho sob a Luz.

Aqui, o sol morno da manhã começa a me arder nos poros. Recolho, às pressas, minhas notas virtuais para a tessitura do conto do Blog. Levo a força e a coragem sob a epiderme da pele, e a cabeça se aventura no terreno da esperança.

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CRÔNICA 47
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quinta-feira, 22 de julho de 2010

RESPIRAMOS ENQUANTO DEUS PERMITE


Faz dois dias, passava da meia-noite. A memória dos meus olhos já me sabia adulta, mas espiava pelo vidro da janela com o mesmo temor reverencial da infância para a portentosa exposição de raios e trovoadas adornando uma das maiores tempestades da coleção de Julho. A impetuosidade da chuva abria um leque de açoites cortantes envergando os troncos das árvores, estremecendo as paredes assustadas, vibrando as profundezas do solo e tangendo o compasso da minha respiração. Era flagrante a força ruidosa do vento uivando, a soar o alarme da nossa impotência diante do imutável, quando a Natureza, em fúria, levanta a voz. Lembro que os arrepios da minha coluna emudeceram as minhas certezas, e entre uma e outra rajada de fogo riscando a escuridão, pedia, com os olhos molhados, às nuvens inquietas serenarem o fôlego e me darem novamente a chance do dia seguinte.

Inevitavelmente se fez presente uma lembrança congelada de dois ou três anos atrás, quando ainda morava num apartamento do 7º andar frente ao rio e na ocasião formulei o mesmo pedido com as mãos postas. Na época, estávamos concentrados na execução de um projeto em família numa tarde chuvosa, quando, num único instante, o lustre embalou sozinho, o prédio de 18 andares oscilou numa dança ostensiva e perigosa, ignorando toda a robusta estrutura de ferro e concreto. Os objetos ensaiaram movimentos de arremesso, e uma sensação de desequilíbrio afetando nosso eixo nos confirmou estar acontecendo um fenômeno raro e ainda não conhecido de um tremor causado por terremoto. Quando tomamos consciência do perigo, seguramos instintivamente as mãos numa corrente, zarpamos em disparada rumo à saída e descemos pelo elevador, com as idéias confusas, o coração atordoado e o sistema nervoso em pânico, rezando para chegar ao chão, ainda que tão inseguro quanto nas alturas. Na interminável viagem até embaixo, mil conjeturas abalavam a minha serenidade e me sugeriam a proximidade da “grande passagem”. Tão certa estava, minutos antes, da minha integridade, e num piscar de olhos, exposta estava à fragmentação de todo o resto. Tudo seguia por um triz. Ansiei, naquele momento, pela oportunidade do começar de novo com mais acertos, antes do corpo baixar a guarda e deixar o espírito escapar.

O estrondo de um trovão colossal devolveu aquele acontecido ao passado e trouxe minha atenção de volta para a paisagem na madrugada envolta em negrume, com as águas descendo do alto em pancadas de assombrar. Dei comigo num canto recarregando a minha fé e deixei que as corredeiras lavassem as vísceras da terra e levassem junto os meus receios.

Quando as circunstâncias atestam a nossa constituição corporal tão temporária e pouco resistente, constatamos quão vulnerável é a matéria do nosso invólucro. Quem já esteve no limiar do outro mundo e permaneceu do lado de cá, ganhou a bênção de repensar seu viver, revendo seus conceitos, recompondo suas prioridades, reorientando seus caminhos.

Grande parte da humanidade, enquanto desfruta a dádiva da vida, se concebe “blindada” e por toda a existência lustra o escudo da presunção. Vive, dia após dia, pontificando, dogmatizando, disparando arrogância de um pedestal em “andar superior”. Pouco ou nada ouve, ignora o mundo dos outros, é dona da verdade, dona da rua, dona dos negócios, dona das pessoas, dona do mundo... quando sequer tem poder sobre si mesma, quando sequer aprende a dar sentido à própria existência.

Salta aos olhos do vivente mais desatento, a disputa diária de todos à nossa volta pelo pódio da ostentação da riqueza, da beleza, do saber. Entretanto, o semelhante é comumente visto com intolerância, agressividade, intransigência, desprezo, por vezes sob a máscara do trato “politicamente correto”. Torpeza é a tônica das ações, caçando ganhos e vantagens, ferindo e lesando qualquer um, sob o disfarce de palavras pias e doces em manobras venenosas. Pela gana do poder, todos os valores são atropelados, todos os limites da legalidade e da moralidade são ultrapassados, sem hesitação. Compaixão é virtude fora do contexto, não gera lucro, não aumenta a cotação. As aparências se sobrepõem à essência. Crescimento interior, evolução espiritual, reforma íntima são temas de segundo plano adiados para um tempo “mais tarde”, quando sequer têm a garantia de vida no segundo seguinte.

Nosso tempo de validade, assim imagino, é medido numa ampulheta celestial inexorável e sem retrocesso, liberando todas as condições para o êxito da nossa breve jornada terrestre. Entretanto, muitos gastam tempo e energia acumulando tesouros, empregados na satisfação pessoal das próprias paixões. Os bens materiais - empréstimos da generosidade divina - deveriam ser instrumentos para feitos de grande valia no nosso balanço final, pois nos céus a moeda forte são as boas obras, as qualidades da alma. Tudo que recebemos poderá frutificar em prol de alguém ou de todos. Falo, por exemplo, da abundância da inteligência que pode ser aplicada, tal qual a riqueza do ouro, derramando em torno de si os tesouros da instrução e da multiplicação do conhecimento.

Simples mortais que são, pessoas dos quatro cantos do mundo vivem com uma venda na mente, em frenesi de grandeza. Esquecem que somos efêmeros viandantes neste Planeta. Esquecem que nossa compleição física é composta de material orgânico, tem vida útil determinada, cumpre um ciclo curto. Esquecem que o corpo é o revestimento da parte imortal utilizando-se dessa cobertura provisória para cumprir um objetivo aqui neste Plano. Esquecem, enfim, que só respiramos enquanto a Divindade Superior permite. E que, a qualquer momento, tudo nos pode ser retirado. Sempre tenho em mente o pronunciamento do Senhor Deus, na Parábola do Avarento, dita pelo Mestre Jesus, mais ou menos assim: um homem rico, cujas terras tinham produção extraordinária, se entretinha a pensar consigo: “Que hei de fazer, se já não há mais lugar onde guardar tudo o que vou colher? Aqui está o que farei: demolirei os meus celeiros e construirei outros maiores, onde porei toda a minha colheita e todos os meus bens. E direi à minha alma: Minha alma, tens de reserva muitos bens para longos anos; repousa, come, bebe, goza. Mas Deus ao mesmo tempo disse ao homem: “Que insensato és! Esta noite mesmo te será reclamada a alma. Para que servirá o que acumulaste?”

Assim, depois do sobressalto com o abalo sísmico em tempo real, sacudindo as minhas verdades e me avisando da transitoriedade do meu universo, abri a tampa do peito para reordenar meus projetos eleitos e jurei a mim mesma: quando chegar a hora de receber do Criador a sentença divina da expiração do meu prazo, ter-me-ei esforçado para ser e fazer o melhor possível neste mundo, pelo tempo que me resta. Assim será.


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CRÔNICA 36
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segunda-feira, 22 de março de 2010

O FEITIÇO LANÇADO NA PALAVRA DITA


Todas as vezes que perguntava sobre o meu estado, ao telefone, meu querido pai já antecipava a resposta: “Diga que você está bem, cada vez melhor. Repita que você é forte, saudável, protegida e assim será”. Quando criança, não entendia muito bem esse processo, e relatava uma sucessão de queixas no café da manhã para responder sobre o incômodo da gripe à noite quando a casa dormia em penumbra, mas a tosse montava plantão para enxotar o meu sono. Largando de lado a xícara de café e o jornal, meu pai me interrompia com habitual complacência e me fazia repetir em tom mais alto: “Eu estou bem, já está passando, já estou curada”. Não mais esqueci tão preciosa herança legada pela pessoa mais forte, destemida, determinada e otimista que conheci em minha vida. Queria-nos um mundo mais brando, porém mais afeito aos comandos do nosso autocontrole, onde a coragem matasse o choro, o sorriso engolisse o medo e a palavra apontasse novos nortes. Hoje sinto cheiro de memórias a riscar-me no coração uma colméia de saudades. Cada casulo guarda um pedaço do que aprendi entre parábolas desenhadas pelo sábio contador de histórias para que eu desvendasse ao longo da vida. E sempre que remonto na lembrança as metáforas alojadas nos seus vaticínios, fere-me na pele um rasgão e uma enchente de uma seiva salgada pela dor da ausência alaga minhas pálpebras e me afoga os olhos.

A palavra é um dom outorgado pela Inteligência Superior aos indivíduos ditos racionais no planeta Terra, embora a incongruência na fala de alguns oradores e outras figuras proeminentes me tenha cavado um poço de dúvidas quanto à racionalidade da raça humana.

Fernando Pessoa, em inspirada combinação de vocábulos, nos brindou com a sentença: "O homem é do tamanho do seu sonho". E eu aprendi, por conta própria, que a linguagem conduz o nosso pensamento para direções que potencializam ou limitam as nossas possibilidades de sonhar, eis que a palavra está vinculada em linha reta à capacidade de realização pessoal de cada um de nós. Frases que aceitamos como verdade decretam a materialização daquilo que acreditamos em nossa mente. Tais frases, oriundas das nossas crenças herdadas e adquiridas e por nós assumidas como dogmas, criam, moldam a realidade à nossa volta.

Palavras não são uma reunião combinada de letras mortas. Na vida doméstica ou social estamos habituados a lidar com a nossa expressão oral de forma leviana e irresponsável. Aventurar-se no mundo das palavras é um risco, requer treinamento constante, análise criteriosa de tudo o que se verbaliza diariamente. É preciso atentar para o que nossos lábios profetizam, pois palavras soltas ao vento fluem com a leveza da brisa, mas têm o impacto de um vendaval. A Bíblia afirma no livro Provérbios que quer a MORTE quer a VIDA estão no poder da nossa língua. E a palavra assume importância excelsa na conotação divina, quando o próprio Jesus é chamado de Logos - O Verbo de Deus - Ele é a Palavra encarnada, tornada carne, na forma humana.

Quando uma palavra se instala dentro de nós, ela chama um clima próprio ao nosso campo mental, sugere uma abordagem particular. Pela palavra, abrimos caminhos alvissareiros ou espinhosos na nossa rota. Tudo que verbalizamos plasma a nossa vitória ou a nossa derrota. Existe um poder, um encantamento, um feitiço lançado na palavra dita. Quando insisto em enfatizar a força das palavras, comprovada em experiência própria, é porque há uma seriedade profunda na palavra falada com sentimento: ela contém vibração que se converte em uma onda invisível a exercer influências no nosso modo de agir. Justamente por ser uma juntura de sons resultante de um pensamento ligado a sentimentos específicos acionando emoções, funciona como um detonador de tudo a ela ligado.

Se bem empregadas, as palavras nos abrem a senda do sucesso. Manifestações faladas de otimismo criam o nosso progresso, promovem o êxito dos nossos planos, atraem forças positivas favoráveis ao nosso intento. Uma oração, um ensinamento, um cumprimento amistoso, um agradecimento, um prognóstico revestido de esperança e fé traduzem energia de fraternidade e iluminação que trazem retorno a nós mesmos e ao nosso ambiente, refletindo entusiasmo e grandeza d’alma entre as pessoas, portanto, sensível avanço na evolução individual e coletiva. É como perfume de arco-íris que exala o aroma das cores do tesouro interior que cada um carrega por ser como é.

Contrariamente, as palavras negativas aniquilam, de pronto, o que de bom estava a caminho, plantam obstáculos à nossa volta, fabricam moléstias, bloqueiam oportunidades, fincam os esteios da estagnação, do retrocesso, do fracasso. Um impropério, uma crítica destrutiva, uma expressão agressiva, uma ameaça de vingança, um termo grosseiro, uma declaração de desamor consubstanciam uma onda de energias negativas e lesivas que atuam em movimento contínuo, num círculo vicioso, alimentado pela cadeia de vibrações densas, ou seja, mente e sentimentos semelhantes dos mundos inferiores.

Assim, a arte de escolher melhor palavras e pensamentos tem o condão de mudar o nosso rumo. Uma das maneiras de direcionarmos este trunfo poderoso a nosso favor e aumentarmos o nosso poder de realização pessoal é alinharmos aquilo que falamos com o que fazemos. Examinarmos o que dizemos a nós mesmos e às pessoas à nossa volta alerta a nossa consciência para retificarmos os nossos padrões de comportamento ou escolhermos seguir por um outro caminho. De posse desse controle, tudo aquilo que expressarmos verbalmente, terá um imenso poder de concretização na resposta do Universo: “Sua ordem será cumprida”.

Vigiarmos as palavras que saem bailando com a nossa voz, entoá-las ao compasso do nosso coração impede que componham um réquiem com as nossas lágrimas ou sinalizem os nossos ancoradouros com pontos finais de sonhos desfeitos e interrogações de futuro em cinzas.

Faz-se mister, por isso, evitarmos palavras corrompidas, viciadas, contaminadas pelo medo, pela insegurança, pela tristeza. É de urgência máxima empregarmos palavras arejadas, livres de controvérsias, sem apelo de argumentação, apenas expressões de nossas impressões. Se uma palavra suscitar maus sentimentos como ira, tumulto ou discussão, cem vezes melhor descartá-la, abandoná-la, permutá-la por algo melhor, ou pelo silêncio, pelo canto, pela poesia, pela oração.

Depois de tudo, uma certeza devemos gravar a ferro e fogo: seremos sempre os únicos responsáveis pelas consequências diretas e indiretas das palavras que proferimos a esmo, que disparamos ao acaso. Portanto, para a construção de uma vida cheia de graças, façamos de nossas palavras o melhor de nosso interior, pois a boca fala daquilo que o coração está cheio. A fórmula é simplicíssima: o imperioso uso de palavras que e-d-i-f-i-c-a-m. Manifeste saúde, formule aos céus as palavras mágicas: “Tenho paz, sou feliz, sou grato”.

Abracadabra! Abra a sua mente, alteie os seus pensamentos e afie a sua língua para que da sua boca jorrem palavras benditas a atrair um oceano de bênçãos em todas as marés da sua viagem terrena!


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CRÔNICA 32
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sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

UM TRATO NO CORPO, UM LUSTRE NO ESPÍRITO


De tão cedo, o relógio ainda bocejava na manhã antes de bater as horas para autorizar a abertura do shopping. Nem transpus a porta e já o celular me avisava do adiamento do meu compromisso no complexo daquele mundo de lojas. Um cappuccino na minha cafeteria preferida me pareceu um passatempo animador para tolerar a longa espera. Enquanto folheio um periódico adquirido na banca, o atendente da praça de alimentação desfila um carrinho com diversas bandejas transportando um desjejum extravagante a despertar a curiosidade de quem estava por perto: grande volume de salgados, frituras e massas, provavelmente destinado a um grupo de pessoas. Com o olhar espiando por cima da revista aberta, acompanhei discretamente o trajeto da encomenda para confirmar o destino. Para minha surpresa, a mesa a ser servida tinha simplesmente duas pessoas: mãe e filha criança, criaturas supostamente normais, ambas do tipo com um estômago só em cada abdômen. Voltei a me concentrar em meus papéis, e depois de algum tempo perdida em anotações acompanhadas do terceiro café, reconheci pela vidraça a silhueta das duas protagonistas deste acaso na saída do shopping: caminhavam, sem pressa e sem qualquer proteção, para o estacionamento aberto com o céu ruindo em tempestade, dessas que golpeiam os ossos e maceram a pele com lambadas de chuva densa. Não me atrevo a tecer qualquer comentário sobre o que vi, mas saltou à minha fronte o antigo brocardo latino: "Mens sana in corpore sano."

Tenho uma certeza inquestionável de que o nosso corpo é um empréstimo concedido pela graça divina para veicular a evolução da nossa alma imortal, portanto, um santuário a ser tombado pelos cuidados de seu detentor enquanto viver sob a condição humana no plano físico.

O grande Mestre da humanidade – o Sublime Galileu – nos deixou a fórmula completa para o melhor viver do lado de cá: “Amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a si mesmo”. Daí se conclui que para verdadeiramente amarmos a Deus, deveremos amar ao próximo e também a nós mesmos. Gostarmos e cuidarmos de nós mesmos são ditames da consciência para cumprirmos o propósito da nossa evolução.

Os cuidados a que aqui me refiro estão na procura da saúde no sentido de completo bem-estar físico, mental e espiritual: tratar o corpo, lustrar o espírito e dominar a mente. Os antigos defendiam a tese do ser humano integral harmonizado com as forças cósmicas e divinas na tripartição: corpo, mente e espírito. É importante compreendermos que, de um modo geral, excluídas as exceções por infortúnio, tanto a saúde quanto a enfermidade germinam da mente, das emoções e dos sentimentos, assim como também estão estreitamente relacionadas com o estado de perturbação ou tranqüilidade da alma.

Hodiernamente, na busca do bem-estar idealizado para uma vida o mais feliz possível, fugimos da morte e convergimos nossos esforços para alcançarmos mais tempo de vida, mas descuidamos da fonte de abastecimento vital que é a essência incorpórea - o espírito. De diferentes formas, asfixiamos e enterramos o amor em sepulcros recônditos fora do coração, nos distanciamos do Criador, descompomos o nosso semelhante, aviltamos a nossa mãe Terra, nos tornamos fragmentados e intoxicados e nos arredamos da nossa parte imaterial, a nossa alma. Ficamos aprisionados no meio do nada, onde o céu tem um limite e o horizonte tem um fim. Há que se abrir a mente, soltar as amarras contaminadas do pensamento para atender as necessidades que a própria Natureza indica.

O apetite voraz da cena de hoje cedo no shopping, me remete o foco aos muitos “pecados” que colecionamos hoje para nos penitenciarmos com dor e sofrimento depois. A gula desenfreada, por exemplo, abre as portas mais cedo para a grande passagem para a outra dimensão. O consumo descomedido de açúcar, sal, gorduras saturadas, anilinas e outros venenos provocam doenças limitadoras e irreversíveis. O sedentarismo, os vícios, a falta de asseio encurtam o nosso tempo de validade. Se praticamos alguns tantos desses abusos contra o nosso organismo, teremos cometido um atentado contra a nossa saúde e comprometido a nossa integridade física. Não podemos apenar o nosso corpo pelas violações que o nosso livre arbítrio nos instigou a cometer e pelas quais seremos responsabilizados. Nesse ponto, já não adianta nos visitar o remorso, não adianta mais soprar a dor para doer menos.

Uma outra forma de invocar a dor ou a agonia é a nossa permissão para o trânsito de energias negativas nas nossas ideias, pontuando a nossa rotina e alojando-se no nosso âmago. Os gritos que a nossa alma solta em silêncio nos expõe ao perigo da desestruturação emocional e física pela somatização dessas chagas apodrecidas no nosso interior. Se insistimos em pensar ou lembrar de males, doenças, mágoas e desgraças, atrairemos todos esses malefícios para a nossa pauta. Açoitar o coração com tantos tormentos é morrer mais depressa. Assim, o mau uso do viver, do sentir e do pensar, fatalmente nos levará, por caminhos mórbidos dolorosos, a paisagens sinistras na nossa realidade. Carece enxergarmos com os olhos da razão que as nossas escolhas, os nossos hábitos de hoje nos dirão como marcharemos para a idade avançada, como desfrutaremos da velhice no futuro, como nosso corpo reagirá aos mistérios nus que a nossa vivência guarda.

O corpo é o instrumento da alma, de uma alma cativa da carne. Para que não morra lentamente a cada amanhecer, para esticar o tempo até muitos outros amanhãs, é imperioso o resguardo de todas as funções para permitir uma longevidade ativa, e desse jeito aprendermos mais lições sobre o que queremos, quando somos guiados por um querer maior que nós. Espírito em equilíbrio requer um corpo disposto. Por se acharem em dependência mútua, importa cuidar-se de ambos, pois se maltratarmos o nosso corpo, aonde vamos morar?

Não precisamos de um decálogo complexo para a busca da saúde plena nos dois desdobramentos do ser vivente: material e imaterial. Na cartilha da convivência, o segredo da ciência de viver está naqueles ingredientes simples e básicos que aprendemos com os pais desde a infância para uma vida longa e satisfatória. Assim, para um trato no corpo a bula recomenda: uma vistoria clínica por ano, baixa ingestão de alimentos (e de alimentos mais naturais), bastante água, caminhadas diárias regulares, hábitos de higiene, respiração profunda algumas vezes ao dia. E para um lustre no espírito, a receita infalível: sorriso frequente até para si mesmo, pensamento positivo, respeito ao próximo, bom-senso em tudo, exercício sistemático do perdão, sintonia com o Supremo Provedor através da oração de agradecimento.

E todos os que crêem deveriam cunhar dois agradecimentos nas duas faces de uma moeda de gratidão. Em um dos lados: “Senhor, obrigado pela chance de ter um corpo para melhorar meu espírito aqui na escola terrena.” E na outra face: “Obrigado, Senhor, por eu ter a Tua essência divina, por eu ser mais que um corpo.”

E que dobrem os sinos, ecoem os sons das trombetas celestiais e os Arcanjos digam: “Amém”.


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CRÔNICA 30
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