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quarta-feira, 24 de agosto de 2011

À PROCURA DE MIM

A noite se recolheu antes da hora em busca de prados mais amenos. Para descanso, talvez, dos seguidos plantões no calor abrasante de Agosto. Ao sair à francesa, desadvertida pela pressa, levou minha sombra consigo. E, por engano, a minha identidade foi junto. Sem identidade não sei de mim, nem das minhas memórias, nem do meu destino, até a próxima noite mas devolverem. Mas um dia inteiro é muito tempo para ser ninguém.

Moro neste quintal faz tempo, mas fiquei a ermo à procura de mim - uma planta sem prenome ou sobrenome. Nenhum nome igual ao meu me chama. Ninguém acode às minhas incertezas e nem mesmo os sabiás sabem quem sou, já que não trago uma sombra comigo e não porto nada que ateste minha natureza ou meus atributos. Não há poesia que me ajude. Nesse semiescuro que precede o nascente, me resta um pouco tempo para achar minha origem, antes de a claridade chegar. Sequer posso expressar minha saudação ao Sol sem uma identidade.

Tenho a visão em branco quando tento emergir meu retrato, mas para outras lembranças, as cores são nítidas na minha íris. Debaixo dos olhos já prendi todas as primaveras. E guardei, também, breves arco-íris em dias calmos, em que com a copa nas nuvens sonhava um futuro, do tipo dar a volta ao mundo pelo mar. Nem sei se existe mar, mas sei de como os poemas entoados ao mar fervilhavam minha seiva nos veios. Sei de como a chuva ocupava os espaços vazios da minha pele, de como eu via a lua por entre os dedos, de como embalava berços de passarinhos-bebês em meus braços, até que soubessem voar por asas próprias. Sei que, sem ser a mesma de sempre, sou sempre a mesma,  mas, por ora, não sei quem eu sou.

Talvez eu tivesse um vestígio da minha procedência se pedisse de volta às andorinhas, as histórias que lhes dei nas noites sossegadas, quando se aqueciam no meu colo nos frientos dias de chuva. Entre tantas aventuras que lhes narrei durante nossas conversas ao pé do ouvido, quem sabe, se lembram sobre uma plaquinha com registro de família presenteada a todas as espécies verdes neste verde espaço pelo jardineiro que por aqui passou... Mas as delicadas aves anunciantes do verão não sabem de cor nenhum conto, porque distribuem suas memórias com as sementes que transportam na migração. Aqueles relatos que nos divertiram noite adentro no frio invernal, não receberam guarda, e sim o natural descarte em algum lugar sem mapa.

As magnólias, há pouco, me contaram que sou capaz de garoar orvalho. E de chover sombra. Todas as ervas reinventam a mesma versão quando me abraçam em consolo, desde que a noite hoje se foi mais cedo. Esperava que me falassem de histórias felizes. Para eu entender por que tantas folhas me vestem o corpo. Ou por que de minhas costas descai uma echarpe tecida em fina ramagem cravejada de orquídeas. E em meus tornozelos sandálias de cipós trançados parecem parte de mim. Não reconheço tão vistosa indumentária que me deixa grande, diferente, poderosa, mas sinto que me agrada ser quem sou, seja lá quem eu seja.  

Apoio os pés no chão para me situar e sinto minhas raízes crescerem para baixo cada vez mais fundo, ávidas pela nutrição da Mãe Terra. Meu ventre está camuflado de verde e meus dentes desprendem aroma de hortelã. Meus poros exalam cheiro de mato ligeiramente cítrico, embora goste de banhar-me com ramos de sândalo e almíscar. Sob os meus cabelos longos, sanhaçus se agasalham cochilando no meu ombro. Asas sedentas de afagos, plumas em ponto de afeto... Vejo cascas macias e amadeiradas a cobrirem minha tez no mormaço desta madrugada e heras viçosas a crescer-me nas raias do corpo. As extremidades dos meus dedos me rebentam novos brotos que me prometem fazer maior e mais forte, e giram gentilmente o meu norte para a luz. Já percebi, sou dependente de luz. E da energia que dá vida aos bichinhos, às flores, às ervas, aos humanos, à terra, à água, ao mar, ao céu... e que eu chamo de Deus.

Reparei, neste instante, que tenho um coração. Coberto de musgo para disfarçar sentimentos. Por culpa dele me encantei com uma floresta extensa de seres humanos que por mim passaram em todas as estações. Criaturas interessantes, mas insondáveis em seu pensar. Nunca soube se, como eu,   carecem dos raios solares para a fotossíntese. Sei apenas que meu peito é marcado de cicatrizes por sofrer de um hábito deplorável de ternura aos humanos. Antes era só ternura, com risco de amor. Depois ternura e medo. A minha inquietação agora tem o nome dos humanos dentro, pois já só tenho medo. Um medo por dentro da terra, da parte da humanidade predadora da Natureza.

A cada geração desses seres que compõem a raça humana, um tanto de espíritos impuros devasta vidas, sem conta, no reino vegetal e deixa meio mundo de natureza silvestre em agonia. Perigos assombrados de ataques  manejados pela "espécie animal inteligente", que desertam um bosque inteiro cheio de vida centenária. Essas maldades riscam abalos em todo ser vivo, e em mim dói mais, porque o coração sabe de onde vem as feridas. Feridas doídas, calcadas por tantos abates aos organismos verdes - meus semelhantes - dotados de sensibilidade.  Pesadelos que ameaçam a minha integridade física, assustam-me e calam-me a fala. Estremecem a minha confiança, e me impelem, por segurança, num cansado gesto, a só pronunciar silêncios.

Ainda penso ao coração deixar um naco de terra tingida de praia e mar onde, semeando a esperança, atraia a alegria a fazer morada. Quem sabe eu volte a contar às margaridas nas rochas sobre o mistério dos dias nublados. Quem sabe eu volte a crer nos homens e fale da boa gente que ao pé do meu abrigo, dias atrás de outros dias, trazia o coração na boca. Quem sabe eu volte a sonhar em alçar o topo do mundo. Com ramas nos braços abertos aos ares úmidos de Agosto, procurar marés mais altas. Pensar em voar por cima d’água e ver além dos muros e telhados, me extasiar com as paisagens espelhadas nos rostos dos homens de bem. Sentir o impulso de sorrir, como se dançar ao vento fosse a roupa escolhida ao romper de manhãs pintadas de azul.

Continuo à procura de mim. Algo me dirá de onde vim e para onde vou. Preciso me apressar em decifrar meu DNA. Uma coruja em descanso enfeita uma ranhura em minha costela e coça a orelha num botão pendente num galho mais perto. Não havia notado que tinha tantos botões prestes a eclodir, recheados de frutinhos. Mais abaixo, rente ao solo, a planta dos meus pés floresceu antes que o dia levantasse as pálpebras. E nestas flores com a minha assinatura, finalmente descobri minhas digitais: eu sou uma árvore prenhe de afetividades.

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Minha homenagem à Cariota - frondosa árvore do meu quintal -
por ser quase Setembro - seu aniversário.
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CRÔNICA 48
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domingo, 21 de junho de 2009

ENTRE O SONHO E A REALIDADE


Quem não sonha? Quem já não fugiu à dura realidade do dia-a-dia, para se entregar, por momentos, ao devaneio restaurador do ânimo desgastado? Não falo, obviamente, do sonho de olhos fechados. Aludo, sim, ao divagar da mente em busca de ideais e situações em total analgesia às dores infligidas no fragor da batalha quotidiana. Reais? Ilusórias? Atingíveis? Para o devaneador não importa a atribuição de tais predicados ao tema escolhido pelo seu ego. Só lhe importa viver o sonho, viver na fantasia o que lhe é negado pela difícil vida real, ou mesmo deleitar-se simplesmente ao sabor da distração ou, ainda, render-se ao enlevo sob a dormência do amor.

Mas, até que ponto seria válido sonhar? Haveria limites para a prática, cuja extrapolação se afigurasse como perigosa ou não salutar? A questão é profunda. Pessoas existem que sonham quimeras sem quaisquer possibilidades de concretização. Outras há que as buscam em degrau mais próximo e fácil de ser galgado. Algumas fazem do sonho um bálsamo revigorante, antes do retorno à refrega, enquanto eminentes sonhadores se alienam de corpo e alma para fugir às frustrações impingidas. Quem estaria certo?

Antes de responder, analiso sucintamente meu próprio perfil, como sonhadora incurável que sou. Remonto às minhas divagações que começaram a se esboçar aos três anos de idade, quando aprendi a ler e sentia que esse conhecimento me trazia um certo poder. Adentrei muito rapidamente no mundo das histórias infantis e ensaiava, vez por outra, trazê-las para o meu mundo. Assim, no meu imaginário faz-de-conta eu assumia, secretamente, o papel das heroínas dos contos de fadas e me desligava de tudo, por horas seguidas, concebendo nas idéias séries de aventuras para protagonizar. Nesse período, trazia comigo, dia e noite, minha boneca de pano com cabelo de lã que se chamava Zoe e que se tornou a minha confidente, a parceira com quem eu arquitetava minhas investidas para desbravar o mundo desconhecido.

Uma energia vulcânica explodia dentro de mim, minha mente trabalhava ativamente fervendo em ponto de lava ardente. Desse modo, a imaginação encontrava campo fértil nos meus pensamentos, ao mesmo tempo em que a vitalidade derramava pelos meus poros. Assim, em certa fase da minha infância, antes dos quatro anos, uma coleção de machucados nos joelhos resultante das minhas peripécias sobre uma perna de pau, limitou meus inflamados impulsos aventureiros. Os “remendos" com esparadrapos sobre os esfolamentos me obrigaram, em caráter temporário, ao sossego para a cura. Carregando a Zoe inseparavelmente embaixo do braço, entreguei-me ao desfrute da quietude e do silêncio e acabei aprendendo a ver mais com o interior e nem tanto com o tato. Comecei a exercitar a observação, me envolvendo com os atrativos da Natureza e dessa forma “navegava” em incontáveis digressões dentro da minha percepção dos fenômenos naturais:

- Foi assim que me tornei cativa do espetáculo exibido pelo por-do-sol que oferecia uma coleção de sóis diferentes em cada entardecer. Havia dias, na mudança de turno entre a tarde e a noite em que o céu expunha o mesmo sol de formas diferentes, ora ardendo em chamas no espaço até o horizonte, ora se espreguiçando sobre formas suaves e esfumaçadas de sua paleta de cores pastel. Passei a aguardar com euforia a hora em que o dia começa a dormir e a noite vem acordando, para cair em êxtase com a majestade do Rei dos Astros se pondo. Passei a colecionar pores-do-sol, guardá-los catalogados num altar recôndito construído na minha mente para admirá-los quando me aprouvesse, em qualquer tempo e enquanto meus dias durassem.

- Também a chuva, interpretada pela minha lente infantil, tinha especial significado quando vestia a cor do cristal por causa do arco-íris. Vinha, por ordem divina, trazer um anúncio secreto para os meus sentidos: minha imaginação associava esse prodígio da chuva abraçada ao arco-íris, a um prenúncio de bonança, de fartura. Então, me perdia absorta durante a transição entre os pingos d’água fluindo para o desenho do arco de sete cores no céu. Desse momento em diante, esperava sonhando e transbordando certezas, os frutos da abundância (que eu chamava de “coisas boas”) chegarem até nós.

- E as nuvens me faziam acreditar serem um sinal de comunicação dos céus com os mortais. Eu as decifrava sob uma atmosfera sobrenatural. Formavam silhuetas completas como anjos arremessando flocos uns nos outros deixando cair sobre nós os salpicos das gotas de sereno, até se dissiparem em novas figuras. Tal cenário me sugeria um aceno celestial me autorizando explorar com vigor as divertidas brincadeiras de criança. Outras vezes, dragões atirando labaredas de fogo pelas narinas me “abordavam” sobre o excesso de peraltices. Era o momento de recuar e repensar minhas estratégias. E assim, eu me transportava, planando na ficção, captando os comandos das nuvens para direcionar o rumo dos meus folguedos.

Agora eu cresci e fiquei adulta demais para permitir que minhas abstrações flutuem e se percam divagando no espaço sideral. Ancorei meus sonhos com os pés em patamar acessível, mas algumas aspirações criaram asas que atingem as estrelas, colocando em dúvida a racionalidade das minhas pretensões. Assim digo porque insisto em sonhar ver em vida indícios de que a espécie humana caminha para a redenção, de que a paz entre os povos está assegurada, de que a preservação do Planeta é uma realidade... e outros enleios irrealizáveis a curto prazo.

Finalmente, respondendo à questão quanto ao liame entre o sonho e a realidade, invisto meu parecer no cultivo dos sonhos para transformá-los em projetos com data marcada e trazê-los para esta dimensão. Para isso carece, antes de tudo, colocarmos esses ideais em lugar onde os alcancemos, com olhar lúcido sobre a realização das nossas expectativas, do contrário, não há como perseguir utopias ou metas onde a razão esteja ausente. É meu ponto-de-vista eleger aquele que sonha sem esquecer que a vida começa onde o sonho acaba, pois a cada instante em que respiramos, recebemos a dádiva do renascer para novas oportunidades de crescimento e de aproximação com a Divindade Superior. É preciso, portanto, buscar ser feliz de verdade no mundo real para que a passagem por aqui não seja em vão, e o melhor mesmo é acordar para a vida e seguir em frente rumo aos destinos.


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CRÔNICA 19
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sábado, 2 de maio de 2009

MEUS LIVROS EM SESSÃO


Passeio os olhos pelo escritório da minha casa e vejo uma profusão de livros calados me olhando vivamente interessados, esperando de mim uma atitude que lhes realce o brilho. Recosto na poltrona para escutá-los, confabular com eles e, quem sabe, arriscar uns rabiscos filosóficos sob a ótica do meu filosofal viver.

Penso que há uma relação estreita e direta entre ler mais e pensar melhor.

Pensar é uma inerência do ser humano, faculdade mental de todos: ricos e pobres, sãos e insanos, cultos e ignorantes. Quaisquer que sejam as impressões acumuladas ao longo da vida, o exercício mental é uma constante: as idéias sobrevêm como fruto das impressões recebidas. É algo natural, próprio da espécie humana.

Porém, refiro-me a uma condição mais complexa: à ordenação lógica do pensamento, à educação e treinamento do raciocínio, para que ele flua de modo sequencial, elegante e harmonioso. Por brilhantes que sejam as ideias, se emitidas sem esse conhecimento, o resultado não se faz, por certo, perfeitamente transmissível ao mundo externo. Há o risco de a exposição acontecer de modo atabalhoado, ininteligível.

E, como desenvolver técnica que permita, se não atingir a excelência, pelo menos propiciar um perfeito desenvolvimento da ordenação mental? Por meio da leitura, eu diria. Faço alusão a trabalhos de autores renomados, a antologias, aos clássicos, aos expoentes da nova geração e outras obras físicas ou digitais que nos forneçam instrumentos de exercício da matéria. No meu caso, especialmente, há uma longa via a ser percorrida, inebriada no pensamento dos imortais e mergulhada por horas esquecidas no universo dos livros.

Livros!... Tenho compulsão por livros. Vivo entre eles pelo meu caminho, são o meu carma, a minha sina. Apraz-me tragar seu conteúdo, desvendar os segredos de suas páginas, aquilatar suas propostas. No momento em que escrevo este texto, em sessão privada, com a presença da maioria dos meus livros eleitos pelo coração, repasso a vista na minha biblioteca para avaliar o meu relacionamento com todos eles, facultando-lhes a palavra para os devidos questionamentos:

- Os livros lidos, em número razoável, sentem-se agraciados com mérito, privilegiados pela escolha. Mostram, vaidosos, as minhas resenhas nas orelhas; exibem com orgulho os marca-páginas esquecidos em seu interior, como troféus de reconhecimento do seu valor. Refestelados, porém insaciáveis, atrevem-se, em murmúrios, a me inquirir sobre a ocasião em que reviveremos o prazer de uma releitura.

- Alguns volumes específicos da área jurídica, distribuídos sobre a escrivaninha, expõem capas bem produzidas, criadas por designers afeitos ao visual atraente. Estes, em razão do conteúdo, guardam as marcas do meu chamego com suas folhas, convivem em cumplicidade comigo, sempre leais, presentes, habituados aos comandos da pressa e da urgência. Vestidos em rico traje, reivindicam, solenemente, a oportunidade de me acompanhar nos eventos profissionais.

- Outros, interessantíssimos, versando sobre temas diversos, aguardam, impacientemente, a chamada por senha para serem, finalmente, desvendados. Inconformados com a demora, pleiteiam a revisão da ordem de atendimento, simplesmente porque todos reclamam o primeiro lugar.

- Os meus autores prediletos me chamam em silêncio, através de seus nomes que sobressaem nas obras arrumadas na estante, implorando a minha atenção. Enquanto registram a minha ausência do seu convívio, deixam cair no piso qualquer nota conservada em seu poder para atingir certeiro meu remorso pelo descuido com tão importantes vultos.

- Nos livros abertos, os parágrafos em sentinela, assinalados com lembretes, são bravos soldados de prontidão para as minhas pesquisas naquele momento. Aguentam firme os pesos e escoras que lhes inflijo para segurar a informação em estudo. Sentem-se valorizados, qualificados para o labor.

- Alguns livros queridos já estão na fase quase senil, com leitura pela metade, porém, mais valiosos que todos, tornaram-se motivos dos meus ciúmes. São guardiões de assuntos que me embevecem, que carecem de preparo para saborear cada palavra. A mudez das letras pálidas pelo abandono tece frases de protesto num gemido sufocado. Tento argumentar a falta de tempo, mas a cobrança dos mais afoitos pela minha diligência tem uma objeção mais forte: o tempo de validade deles e meu.

- As obras literárias não disfarçam a censura ao meu descaso. Faz muitas luas que não nos encontramos. Clamam alto, envoltas numa queixa doída pela minha companhia. Empenho, novamente, minha palavra cheia de boa-fé de estar com elas em breve, mas a cada passagem minha pelos seus domínios territoriais na prateleira, repuxam a minha roupa ou se engatam nos meus cabelos exigindo o cumprimento da minha promessa.

Todos esses livros, aparentemente estáticos, ao meu redor, têm vida, interagem comigo em imperceptíveis movimentos. Desejam, alucinadamente ser lidos e até, sumariados, se possível, afinal tal prestígio traria uma carícia benfazeja ao seu âmago. Eles todos, como estimados e constantes partícipes de minha vida, desde os três anos de idade até hoje, têm trazido à realidade do meu mundo particular, indizíveis e duradouros prazeres somente sensíveis ao espírito.

Assim, afirmo, convictamente, que além do deleite intelectual que nos trazem, os livros nos abrem o portal onde as possibilidades de fortalecer as habilidades do pensamento constroem, gradativamente, em nosso cérebro, um pensar melhor, de forma coerente, crítica e criativa. Esse pensar “bem produzido” aprimora também a compreensão de nós mesmos e de tudo o que nos cerca. E se, além disso, nos valermos das propriedades da razão, podemos criar e recriar a realidade do mundo em que vivemos; nascerão em nós as asas para a misteriosa, surpreendente e fascinante aventura do filosofar!...

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CRÔNICA 16

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sábado, 13 de dezembro de 2008

O VÔO DA GAIVOTA - ANSEIO DE LIBERDADE


Minha varanda de volta ao contexto. Desta vez por causa de um pôr do sol sui generis entre um céu espaçoso e o nosso mar de água doce - o Rio Negro.

O sol estava inspirado: aplicou os matizes do fogo com a forja em brasa sobre o balanço das ondas no rio; pincelou as nuvens vizinhas com a mais escandalosa paleta de cores, exibindo espantosa aquarela aos nossos tímidos olhos; pulverizou reflexos acobreados de intensa luminosidade sobre a copa das árvores, sobre as fachadas dos prédios e de tudo o que estava ao seu alcance. A enorme esfera incandescente, entretanto, descia o horizonte com certa pressa, talvez para descansar ao abrigo das sombras noturnas, depois do esforço para produzir inigualável obra de arte.

E me era dado contemplar o ocaso chegando para cobrir o dia com o véu da noite, orquestrando o brilho e o rubor do sol em performance de silenciosa poesia. Nesse fim de tarde, em especial, um cenário de impressionante beleza, de cativante esplendor!

Não há exagero na descrição, pelo contrário, não consigo exprimir em simples palavras a grandiosidade do espetáculo proporcionado pelo astro-rei, em cumprimento ao labor divino do Supremo Arquiteto.

É nesse momento mágico, de tocante candura, quando a Natureza me parece em prece ao Criador, que a gaivota amazônica surge nos céus, no seu derradeiro voo do dia. Com movimentos leves, graciosos, como se acompanhassem o ritmo de uma valsa, ela desliza no ar desfilando sua plumagem branco-acinzentada com invejável desenvoltura. Escorrega brandamente naquele espaço iluminado, planando, vencendo os ventos contrários em sua aprimorada acrobacia, deixando em qualquer expectador um convite hipnótico para “viajar” nos desenhos sinuosos do seu voo.

Nele se traduz em seu sentido maior, a própria liberdade, liberdade tão ansiada por muitos. A sensação de voar, sem haver grades no céu, espelha esse sentimento de liberdade absoluta, profundamente arraigado no ser humano, mas que jamais terá condições de ser usufruído na íntegra. A liberdade plena é uma utopia? Na facticidade somos limitados, determinados, penso eu.

Nossas limitações de liberdade não são realidades inventadas, são correntes que a nós se atrelam desde a vida agitada por que passamos, esmagados por um amontoado de compromissos e vínculos que entopem os nossos sentidos e emperram nossos atalhos para o autoconhecimento.

Na esteira do dia-a-dia, com os nossos pés marchando ao compasso da vida, muitos são os monstros internos e externos limitadores do nosso livre arbítrio. Quase sempre, baixamos a guarda com a cumplicidade da noite encobrindo nossos segredos, e nos fazemos prisioneiros de medos, angústias e preconceitos, e outros freios a travar a capacidade de usarmos a razão e de valorizarmos de um jeito inteligente o mundo que cabe em nós
. E atropelamos justamente essa habilidade que, segundo os entendidos, atribui ao homem o sentido da liberdade concebida como plena expressão da vontade humana.

Já aprendi por dentro da pele, que é possível nos libertarmos de tantos grilhões, deixarmos essas amarras num passado queimado, mas isso é uma árdua tarefa com desafios para uma vida inteira, maior que essa, porque essa vida é pouca para tanto.

Ora, se na concepção genérica, a liberdade é “a condição de um indivíduo ter pleno poder sobre si mesmo e sobre seus atos”, então, a meu ver, está longe de participarmos, senão de modo meramente visual, da liberdade expressa no voo da gaivota.

E assim, estendi minha mão a mexer em lugares longe no horizonte, para trazer um recorte do sol e estampar no meu colo a paisagem bucólica original dessa tarde. Para não deixar o coração fugir-me com essa visão. 


por toda a abstração suscitada pela dança da gaivota no panorama de um poente suntuoso, eu procuro um lugar onde estacionar as emoções para me arriscar a deixar aqui o meu conceito próprio de liberdade. Um conceito subjetivo, arcaico, talvez, mas que busco exercitar, a duras penas. Liberdade, pra mim, enfim, é conseguir me perdoar e perdoar os outros, fazer as minhas escolhas segundo o meu tirocínio, dominar a mim mesma, abrir minha mente sem amarras, e... estar na paz do meu Senhor Deus! Aí, sim, eu me entendo livre... em plenitude!
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CRÔNICA 7

terça-feira, 21 de outubro de 2008

AS EUGÊNIAS DA MINHA VARANDA


Eu moro no sétimo andar de um edifício voltado para o Rio Negro. Ao lado do meu prédio floresce uma mata rica em árvores centenárias e vegetação densa criando um habitat apropriado para pequenos animais e grande diversidade de aves. Enquanto o céu se abre, perco-me em horizontes, vendo das janelas, a exibição das famílias de macaquinhos fazendo malabarismos, o deslocamento das preguiças entre as árvores, o voo em bando dos tucanos. Pássaros exóticos, com plumagens extravagantes, bailam sem rumo, levando consigo meu olhar hipnotizado.

Na varanda do meu apartamento, instalei duas Eugênias adultas para filtrar os raios solares e humanizar o ambiente. Preferi não moldá-las para se vestirem de uma aparência natural. Antes de dormir, deixo um afago em suas folhagens, falando do meu agrado por elas.

Não sabia eu que essas singelas plantinhas seriam um cenário tão atrativo para um grupo de afinados Sanhaçus.

Todas as manhãs, cedinho, um casal desses passarinhos vem pousar nos galhos da planta e emitir um trinado alto e agradável como um convite a outros parceiros para um animado festim. Esse pedacinho de verde funciona como uma espécie de Café onde a passarada se encontra para atualizar as notícias. O ritual se repete durante outras horas do dia, sem qualquer intimidação com a presença dos humanos. 


Todas as vezes que eu abro as portas, em cada parte da varanda sinto um cheiro de jasmim no ar deixado pelas pegadas dos minúsculos invasores. Busco, em vão, entender a causa dessas visitas. Esses bichinhos, cativos do meu espaço, aproximam-se desarmados, apegaram-se aos meus dois arbustos domésticos de estimação, e regressam com frequência  pontual para o mesmo porto. Parece que fizeram um pacto, uma escolha coletiva para pouso mais perto dos próprios ninhos, pois em sua zona de conforto na mata, o horizonte tem um limite e o céu tem um fim.  Eles desconhecem o mundo que existe para lá das minhas janelas. 

Certo dia, comovida com a permanência de tão assíduos visitantes, preparei uma sofisticada salada com cubinhos de mamão, banana e abacate, servida num copinho plástico de café amarrado com laço num dos galhos da Eugênia mais frequentados pelos cantantes pássaros.

A minha surpresa foi do tamanho da minha decepção. Os saltitantes aventureiros chegaram alvoroçados, percorreram todos os cantinhos da pequena copa e ignoraram completamente o farto banquete ostentado com tanto capricho. Nenhuma bicada, nenhuma ciscada... nem por curiosidade. Ensaiaram o habitual coro e voaram para outras paragens.

Ainda não sei ao certo qual a razão dessas criaturinhas, com um manancial a explorar na floresta vizinha ou no resto do mundo, manifestarem interesse em uma arvorezinha de vaso que não tem sementes, nem flores, nem frutinhos, apenas folhas verdes e miúdas, tão simples... como as boas coisas da vida.
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CRÔNICA 1