quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

PARA FICAR BEM NA FOTO

Talvez por me trazer mais um aniversário, fevereiro me presenteou com o céu e o inferno astral de uma vez só. O rolo do tempo no passar dos dias punha-se a girar sobre o próprio eixo me sussurrando ao ouvido um sonhador falar da vida, como se ela tivesse acontecido, como se eu tivesse aprendido sobre viver.

Na balança de pesos e contrapesos de vivências num ano inteiro, alegrias de grandes dias e tristezas de dias pequenos me afloram memórias de momentos felizes que inventei. Que não me deixaram dúvidas, só certezas de que quanto mais aprendo, quanto mais conheço, quanto mais avanço, menos sei.

Por mim passam as estações e a terra não muda. Mas no calendário, o mês com meu nome próprio já não conta nos dedos a idade, já sente a fragrância dos perfumes antes de abrir o frasco. Pouco sei das folhas de outono que tingiam as tardes de afetos, cedo varridas da minha lembrança por um pé de vento. Só os meus olhos escuros insistem em castigar a claridade do verão à procura de entender por que, embora a primavera me brotasse entusiasmos a crescer-me no tórax, invernos impiedosos me solaparam vicissitudes a apedrejar-me os pés.

Tantas oscilações na maré do tempo que leva e traz o mar calmo ou agitado a se espraiar no que sou, me afogam as ideias e acabam me levando a um encontro comigo mesma diante do espelho. Pergunto ao meu reflexo se neste dia de anos, oloroso de surpresas, solto fogos ou silêncios. Se comemoro com um grande festejo ou me fecho por dentro, tapando as saídas. Tenho assim, à minha frente, pelo menos as duas direções para decidir quanto à passagem deste evento natalício cheio de mistérios e significados para alguém tão envolvido com a vida.

Em resposta, um futuro inteiro nos meus olhos me segreda palavras de renascimento, quase em murmúrio. Dessas que nasceram para serem ditas em voz baixa, só para o coração ouvir.

Afinal, completar anos marca uma mudança na minha história. Mudança de mais de trezentos dias agregados ao meu tempo de validade. Mais de trezentas vezes por ano para reinventar meu enredo. Um bônus precioso para dar conta depois, no atravessar da catraca que libera a alma para o plano espiritual. Na minha contagem, um saldo de bênçãos me torna devedora da possibilidade de fazer melhor pelos outros. E quanto tempo tenho ainda, me parece um troco generoso.

No novelo dos dias que me restam como dádivas, decidi impor a mim mesma uma revisão nos fios. Então, guiando meu corpo contra o medo de quem quer sorver o mundo inteiro, resolvo me atirar ao poema da vida com nova configuração da minha pessoa. Arrisco a me prescrever um roteiro de beleza, e desenhar uma indumentária especial para brilhar na minha festa.

Os elementos escolhidos haverão de me cobrir com um aspecto moderno, dentro de uma modelagem que me caia bem. Isso requer uma pesquisa acurada sobre o melhor estilo. Exige idas e vindas aos entendidos em busca de matéria para o melhor jeito de dizer sim à celebração da vida.

No papel, alguns rabiscos ensaiam o melhor traço de um visual feminino para a nova etapa. Quero, a qualquer custo, conceber uma produção completa da aparência ideal de uma mulher autossuficiente, encaixada em novo tempo. Entre tantos rascunhos, finalmente a inspiração passada a limpo, onde nem limites o corpo encontra para a imaginação. À espera, talvez, do encantamento da palavra dita no desdobrar de cada item da nova receita.

Antes de tudo, todo o preparo começa com a boa forma. Um mergulho insone numa dieta balanceada, incluindo ingestão diária de serenidade regada à paciência. Para acelerar o processo, é indispensável a abstenção total dos alimentos colhidos na horta do infortúnio alheio. E tal como uma modelo, todo o esmero é pouco para desfilar na passarela da vida sob o foco da certeza de si.

É preciso remover da face os ácaros da desilusão acumulada em placas. Espalhar o tônico da esperança para dispersar os vincos nas áreas afetadas pela impressão do desgosto ao redor dos olhos e boca. E, em hipótese alguma, jamais se deixar suspensa na gota de uma lágrima. As feridas deixadas por espinhos cedem ao poder das compressas mornas de simpatia que adoçam a vida por perto.

Cuidado que não falte, está no despir-se de toda a veste da mágoa, e imergir num banho de contato com a essência divina no mais recôndito interior. Aplicar sobre as manchas remanescentes da fúria, um esfoliante com os grãos abrasivos do perdão. Secar a umidade com o bom senso e hidratar os poros com a leveza. Nos cabelos, amaciantes doces que tornem os fios sedosos ao toque das mãos que se desvelam em conciliar, mitigar, aplacar. No vestir-se, a classe é a melhor roupa, a inteligência é a melhor joia, a discrição, o toque mais elegante.

Na maquiagem, a sutileza dos detalhes complementa a difícil arte de injetar a alegria sob a pele para iluminar o semblante. Cortinando as janelas do olhar, cílios naturais devem filtrar a poeira radiativa que corrói os relacionamentos. O colírio do discernimento deve descongestionar a visão e abrir a mente para melhor enxergar o que de bom tem o semelhante. Na boca, o batom deve armar um sorriso de plenitude e realçar o alvo esmalte de palavras mansas, próprias de quem sabe ouvir.

Por fim, a inoculação do amor e da compaixão sob a língua garantem irradiar a harmonia que vem de dentro e equilibrar o fluxo hormonal com perfeição. Com a ressalva de que o abuso dessa combinação remete ao efeito colateral inconfundível da manifestação da ternura. O acabamento de toda a produção se dá com a vaporização dosada do perfume da força e graça de ser uma pessoa de bem.

Descubro, depois da fórmula pronta, que careço de ajustes para caber nos contornos do novo desenho. O resultado demanda esforço e disciplina com pés capazes de segurar o chão. É como cruzar desertos na crença de que ainda existem oásis no caminho. Mas quero estar pronta para o brinde, mesmo que no aniversário vindouro, mesmo que me esqueça de tudo quando o ano findar.

E assim, ainda que com mangas arregaçadas na refrega do quotidiano, quero me ver sempre, no reflexo das paredes, com este traje glamouroso da vontade de acertar, enfeitado com o afloramento das minhas melhores qualidades a quem de mim for próximo.

Esta é a minha proposta para ficar bem na foto do outro lado, no outro mundo, noutra vida.

...................................................................................................
CRÔNICA 54

Mande um recado pra mim, comente este conto.
Poste um comentário!

CURTIR NO FACEBOOK E ADICIONAR AOS FAVORITOS